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. . .continuação

BLUES DO RECRUTA (7)

-Está falando com ele!
Aretha era o nome da garota que estava a minha procura.
Fiquei tão incomodado com a presença dela, que nem sequer convidei-a para entrar.
Fui até muito objetivo pro meu gosto.
-Como conseguiu meu endereço?
-Foi o Roberto que me arrumou! Ele não te disse?
Roberto era o dono do sebo ao lado do Supermercado,
onde adquiri minhas pérolas bluseiras.
-Ele disse que você tem um dos mais raros discos da história do blues.
Gostaria de te pedir um favor.
E sacou uma fita cassete do bolso.
-Você não grava uma fitinha dele para mim? Estou atrás dessa maravilha
não é de hoje, mas não acho de jeito nenhum. Quebra essa, pago o que você quiser!
E para minha mais completa surpresa, ela estava interessada
em: “The King of The Delta Blues”, um disco rarrisimo de Charley Patton
que por força do destino somente eu possuía por aquelas vizinhanças.
Após passar o choque inicial ao pé da porta de entrada da casa de minha Avó. 
Convidei-a para entrar e conhecer minha pequena
coleção de clássicos de Blues. Ela parecia não acreditar no que via.
Quando minha Avó apareceu por volta das oito e meia da noite,
levou um susto ao ver Aretha e eu conversando à vontade sentados ao sofá,
como se fossemos velhos amigos. Ela além de ter um gosto apuradíssimo,
musicalmente falando. Era dona de uma maneira de se comportar,
um sorriso e uma conversa muito peculiares. Quando me dei conta estava completamente envolvido.
Jantamos ao som de Robert Cray. Bebemos a última garrafa de vinho que
restava na geladeira ouvindo Son House e na companhia inseparável
do bom e velho Robert Jhonson ela aos poucos foi me contando que com seus dezoito anos,
era a caçula de uma família de classe média alta que morava do outro lado do País. 
-Sabe que você é o primeiro cara que não ficou curioso quanto ao meu nome?
A mãe dela, uma Riponga inveterada, que na áurea década de setenta correu o País
numa Kombi toda pintada, foi quem decidiu chamá-la de Aretha.
Uma menção toda especial a Aretha Franklin (uma das maiores vozes femininas do Blues),
de quem era fã de carteirinha. E graças ao gosto musical refinado da mãe,
desde muito cedo conheceu todo esse enorme universo musical e com muita propriedade
abriu seu coração e me confessou o que sentia ao ouvir um Blues bem tocado ao violão.
-A sensação que eu tenho Zero, é que o Blues é simples e perfeito como o amor,
paixão, acidente de percurso, tudo se confunde e se funde de maneira limpa e sincera
em sua melodia, causando nos mais incautos uma plenitude tão arrebatadora quanto orgástica.
Até ai já seria o suficiente para eu passar mais uma noite sem dormir,
mas ela tinha outra carta ainda maior na manga. Ao deixá-la na portaria
do prédio onde estava hospedada, fez questão de terminar o que havia começado.
-Amanhã nós vamos passar o dia numa ilha, do outro lado da praia.
E seria muito legal se você viesse com a gente!
-Sério?
-E tem um detalhe importante!
-Qual?
-Não aceito não como resposta!
E me lascou um cinematográfico beijo de língua que só foi
interrompido minutos depois pelos primeiros pingo da chuva.

 



Escrito por fernandobluesborghi às 14h04
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. . .continuação

BLUES DO RECRUTA (6)

Para meu mais completo espanto, até o carnaval que por toda minha vida foi
uma espécie de tormento maior passou batido. Nem sequer notei a presença
da enorme quantidade de turistas que lotavam o litoral nos feriados
dessa época de folia. Estava tão concentrado em meu violão,
no Blues e seus efeitos devastadores, que cheguei a ficar por mais de
dois dias sem colocar os pés na areia. Estava completamente trancafiado
dentro de mim mesmo feito um cancêriano sem lar.
-Você precisa sair um pouco de casa Zero. Ver gente, se divertir um pouco.
Estou começando a ficar preocupada com esse seu comportamento de violeiro errante do segundo andar.
No fundo minha Avó tinha razão. Precisava sair daquele refúgio um pouco.
Por mais que a música me fizesse companhia, estava começando a ter
terríveis alucinações onde me via cantarolando em encruzilhadas perdidas do velho Mississipi,
botecos da longa noite de Nova Orleans e infinitas plantações de algodão de Chicago.
-E não pense você que não dei conta do sumiço das minhas garrafas de vinho!
Acho melhor maneirar um pouco!
Não queria admitir, mas minha Avó estava coberta de razão.
Desde meu pequeno porre na beira da praia que religiosamente toda noite
secava uma ou mais garrafas de vinho. Eu bem que tentava, mas era impossível
resistir à tentação. Estava tão satisfeito com meu pequeno repertório de blues
executados no violão que ao final de minhas sessões de: Sweet Home Chicago,
Me and The Devil Blues, Love In Van e Kind Hearted Woman Blues sacrificava
um litro de vinho com a maior naturalidade.
Já se passavam das  seis horas da tarde, daquela sexta-feira de carnaval.
Cochilava um pouco no sofá, após ouvir por mais de duas horas ininterruptas,
um dos maiores discos de Blues elétricos que até então tive a oportunidade de conseguir.
Era “Stone Crazy”, do gigante Bud Guy. (O som que o velho Bud consegue
tirar de sua guitarra é qualquer coisa de anormal).E o telefone tocou feito louco.
A princípio confundi um pouco o ruído do aparelho com os fantásticos
solos executados por Bud, que ainda ecoavam em minha mente.
Até me tocar que deveria atender ao telefone. Era meu pai.
- Tudo bem por ai Zero?
Ele havia ligado para avisar que eu voltaria para casa na Terça-feira.
Minhas férias tinham chegado ao fim.
 Fiquei um pouco desnorteado ao receber aquele golpe.
Estava me sentindo tão bem, que nem sequer imaginava a possibilidade de voltar para casa.
Aquela notícia surtiu em mim um efeito bem próximo a um nocaute avassalador.
Após desligar o telefone fui até a geladeira e tomei no gargalo
o resto de vinho que havia sobrado da noite anterior.
Estupefato e ainda não acreditando que aquele sonho que estava vivenciando a
mais de dois meses estava a menos de quatro dias de ter um fim,
fiquei parado em frente a pia a observar o mar calmo e sereno no horizonte.
Quando a campainha tocou.
Fui mecanicamente até a porta e ao abri-la dei de cara com uma linda garota
de cabelos cacheados, pele lisa, sorriso cativante e corpo perfeito
que imediatamente provocou em mim a mesma sensação que há pouco tempo tinha
descoberto ao sentir o Blues nas entranhas.
-Gostaria de falar com o Zero, ele está?



Escrito por fernandobluesborghi às 12h34
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. . .continuação

BLUES DO RECRUTA (5)

Definitivamente eu havia sido possuído pelo Blues.
Passei minhas férias estudantis todinha no mais puro isolamento litorâneo,
fazendo companhia a minha Avó em sua fantástica casa Praieira.
E o melhor nisso tudo foi que pude compreender o Blues na sua essência
e da melhor forma possível: Ouvindo e gostando de algo que além de tudo era original e transformador.
O velho disco do Robert Johnson chegou a ficar com seus sulcos
levemente dilatados de tanto que ouvi. Terraplane Blues e Love in Vain
se tornaram verdadeiros hinos para mim. Ouvia-os religiosamente
todas as manhãs antes de sair para caminhar. E não me cansava nunca.
O feitiço que aquelas canções exerciam em mim, era algo indescritível.
Numa dessas caminhadas pela pequena e Paradisíaca cidade encontrei para minha surpresa
um pequeno Sebo que se instalava numa modesta porta ao lado de um Supermercado,
onde além de raridades de verdadeiros gigantes feito: Son House, Leroy Carr,
Elmore James entre outros encontrei uma pequena biografia de Robert Johnson.


“... Em 1938 Johnson bebeu whisky envenenado com estricnina, supostamente
preparado pelo marido ciumento de uma de suas amantes.
Johnson se recuperou do envenenamento,
mas contraiu pneumonia e morreu 3 dias depois, em 16 de Agosto de 1938, em Greenwood, Mississippi.
Há várias versões populares para sua morte: que haveria morrido envenenado pelo whisky,
que haveria morrido de sífilis e que havia sido assassinado com arma de fogo.
Seu certificado de óbito cita apenas "No Doctor" (Sem Médico) como causa da morte ...”


Não há como negar que a biografia do verdadeiro e único Mestre Do Blues
de todos os tempos me virou a cabeça. E mais consciente do que nunca,
senti que aquela música tocada com sentimento e técnicas muito peculiares
finalmente havia impregnado em minhas entranhas e feito um câncer me corroia
por completo me transformando em outra pessoa.
-Zero meu filho, você não se cansa de ouvir essas músicas. As interpretações
desses artistas são tão tristes e melancólicas que chega a dar pena dessas pobres almas.
Minha Avó que possuía uma sensibilidade além da média de toda a família,
no princípio até que tentou gostar do que ouvia, mas com o passar dos dias
não conseguia esconder o seu repúdio a minha pequena coleção de discos de Blues.
-Zero meu neto, essa música de novo não!
Era :“ Kind Hearted Woman Blues”. Segundo ela, a pior das piores.
E ela tinha um motivo todo especial para detestar essa pérola com tamanha intensidade.
Foi o primeiro Blues que consegui tocar no violão.
E foi num velho  Del Vechio marrom que um dia havia sido de meu Avô
que consegui após cinco noites seguidas de tentativas frustradas tocar meu primeiro Blues.
Eu que já estava a ponto de desistir daquela loucura,
motivado por gigantes bolhas de água em meus dedos finalmente
conseguia executar: Kind Hearted Woman Blues, numa noite de lua cheia,
que além de me fazer um bem danado pro espírito foi o motivo de meu primeiro porre.
Meio litro de vinho seco que me tiraram de órbita por longas horas.



Escrito por fernandobluesborghi às 19h44
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. . .continuação

BLUES DO RECRUTA (4)

Aquela atitude autoritária de meus pais por incrível que pareça teve seu lado bom.
Mostrou-me que na verdade eles não eram nada do que eu imaginava.
Por trás daquele aparente casal moderno e bem sucedido,
o que existia na verdade era uma dupla de retrógrados incuráveis.
É óbvio que eles não acreditaram em um pingo daquilo que lhes contei.
Mas estava tão decepcionado com a maneira como agiram, que pouco me importava.
Tinha apenas uma certeza em mente. Devolver a gaita a seu dono no dia seguinte.
E tentei sem sucesso por três dias seguidos. Cheguei a ficar plantado
uma tarde inteira na calçada, a espera do velho cego sem sucesso.
Era sempre a mesma rotina: Portas e janelas trancadas e sequer uma luz acessa.
Certa noite após dar algumas batidas um pouco mais fortes na porta
com a esperança de que pudesse acordá-lo fui surpreendido por um vizinho.
-Está procurando por alguém garoto?
Fiquei sem ação. Com o punho direito estático sob a porta, encarei-o.
Aquele vizinho tinha a idade para ser meu pai com seus longos
cabelos começando a branquear e uma barba rala.
-Estou tentando devolver um instrumento para o senhor
que mora nessa casa mais não consigo!
-Tenho observado você andando por aqui não é de hoje!
-Não consigo encontrá-lo, de jeito nenhum!
-Tem certeza que é nessa casa?
-A uns três ou quatro dias estive aqui e um senhor cego que mora nessa casa. . .
E ele encerrou o assunto de uma vez por todas.
-Não mora ninguém nessa casa a mais de dez anos garoto!
Foi impossível dormir aquela noite. Meus olhos permaneciam abertos
feito duas enormes jabuticabas negras. Pensamentos dos mais estranhos e neuróticos
possíveis habitavam minha mente e nenhum deles chegava a uma conclusão.
Aquela silenciosa e inofensiva gaita sobre meu criado mudo parecia
possuir uma história tão estranha e pessoal que comecei a colocar em dúvida o que havia acontecido.
Resolvi esquecer o que havia acontecido. Coloquei um ponto final naquela história toda.
Ignorei tanto a casa, quanto à gaita no fundo de meu criado mudo.
E aos poucos fui tentando levar adiante minha vidinha morna.
Exatos três meses se passaram. Finalmente havia terminado o ano letivo e o Natal havia chegado.
Meu pai tirou férias no banco e fomos passar como sempre o final de ano na casa de minha avó no litoral.
E tudo se repetia como anos anteriores. A casa se enchia de parentes
dos quatro cantos do País. Era uma falsa alegria rolando no ar
que chegava a contagiar os mais incautos. Sempre detestei aquilo tudo.
Gostava de ficar isolado na beira da praia, a observar as ondas quebrando ao longe.
Ora ou outra era interrompido por um tio ou tia já em avançado estado alcoólico tentando a todo custo,
sem muito sucesso me levar para dentro. Após os fogos pipocarem no horizonte
e um sem número de comprimentos dar boas vindas ao ano novo, tudo se aquietava.
E eu podia voltar para dentro da casa que não haveria de encontrar
mais uma alma viva sequer por ali. Alguns dormiam esparramados pelo sofá da sala,
enquanto outros heroicamente chegavam até os quartos e o restante
ganhava às ruas a procura de algo mais.
Entrei, passei por meus pais que conversavam amenidades com minha avó na cozinha
e sentei no sofá da sala. Liguei a televisão e zapeava pelos canais sem muita pressa
quando algo me chamou a atenção na estante. Era um disco solitário,
abandonado no canto direito do móvel, entre a televisão e o aparelho de Dvd.
A principio a capa me chamou a atenção. Mas parou por ai.
Quando estava prestes a devolvê-lo a seu local de origem,
meu tio no alto da escada surpreendeu-me:
-É todo seu Zero! Pode ficar com ele!
-Quem é esse cara?
-O gênio maior do Blues filho. Robert Johnson!



Escrito por fernandobluesborghi às 19h10
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. . .continuação

BLUES DO RECRUTA (3)

Confesso que assim que o velho fechou a porta na minha cara,
pensei em chamá-lo e devolver seu instrumento.
Por alguns instantes permaneci imóvel defronte a porta.
E conforme as luzes iam apagando, acabei chegando à conclusão
que aquela não seria a hora ideal de fazê-lo.
Voltei para casa com a gaita devidamente guardada (intacta), em meu bolso direito. 
Pelo caminho me peguei mais de uma vez rindo sozinho daquela situação toda.
E tem certas pessoas que não acreditam no acaso. Se eu contasse aquela história
a alguém não muito próximo, com certeza passaria por mentiroso.
Ao chegar em frente ao portão de casa, dou de cara com meus pais desesperados,
aflitos e em avançado estado de espanto e preocupação.
-Ainda bem que você chegou Zero!
Minha mãe veio correndo em minha direção e abraçou-me como há muito não o fazia.
Já meu Pai não perdeu a oportunidade de aumentar o tom de voz e soltar o verbo.
-Onde é que você estava moleque? Quer matar seus pais de preocupação!
Olhei no relógio e por incrível que pareça, já se passavam da meia-noite.
Nunca havia chegado num horário daqueles em casa.
O tempo havia passado muito rápido e eu sequer havia percebido.
Mesmo contando com o apoio incondicional de minha mãe,
entrei em casa cabisbaixo e constrangido. Deixei minhas coisas
sob a escrivaninha do quarto, peguei uma toalha e segui direto ao banheiro.
Sentei em cima da patente para tirar o tênis e não conseguia entender
onde é que eu havia demorado tanto daquele jeito.
Da escola até em casa eu não gastava mais que dez minutos.
Mesmo desviando algumas quadras e ficando não mais que uns quinze ou vinte minutos
na casa do velho, não existia justificativa para eu chegar em casa a Meia-Noite.
Afinal eu havia assistido apenas três aulas, e não passavam das nove horas quando sai do colégio.
Mesmo com a pulga atrás da orelha, tomei meu banho tranqüilo.
Aquela história toda de gaita, velho cego e cachorro barítono haviam ficado para trás.
Além do mais, por que haveria de ficar procurando um complicador comum,
quando estava com a consciência tranqüila de não ter feito nada de errado.
Enquanto trocava de roupa. Levei um susto ao ouvir minha mãe me chamando
com um estranho tom de voz descompassado e inerte:
-Zero. Não esqueça de vir tomar seu Toddy antes de dormir!
Ao entrar na cozinha dou de cara com os dois devidamente sentados em posição inquisitória,
com caras de pouquíssimos amigos e fazendo  transparecer
que alguma coisa estava fora da ordem. Senti-me a pior das criaturas da face da terra.
O mais temido e mortal assassino. Não conseguia de maneira alguma
tomar meu bom e velho Toddy de toda noite. O leite descia rasgando a garganta
e a conta gotas chegava até as paredes do estômago.
O ambiente não estava nada propício pro meu lado. Tentei disfarçar,
mas o clima mórbido que havia se instalado por ali não colaborava.
E não havia outra opção senão encarar a dupla de Militares versão família de frente.
-Vocês querem me perguntar algo, ou é impressão minha?
E meu pai sacou a gaita de seu bolso feito uma arma.
-Onde é que você arrumou essa maldita gaita, posso saber?




Escrito por fernandobluesborghi às 19h55
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. . . continuação

BLUES DO RECRUTA (2)

Caminhei em direção ao meio da quadra, e o som aumentava cada vez mais.
O que mais chamava à atenção, não era o som da gaita propriamente (que era muito bom por sinal),
mas o latido do cão que a acompanhava. Era algo que nunca presenciara antes.
Segui enfeitiçado em direção àquela sinfonia, até parar estarrecido defronte
a uma singela casa de madeira, já em avançado estágio de decomposição.
A humilde casa, não possuía nenhum tipo de portão, muro ou proteção.
Era um rascunho mal iluminado daquilo que um dia fora uma casa.
Entrei pelo quintal abandonado sem maiores cerimônias e numa área prestes
a vir abaixo dei de cara com um senhor por volta dos seus oitenta anos.
Ele estava muito a vontade de camiseta branca, boné vermelho, chinelo de dedo e óculos escuros.
Tocava feito um Deus sua gaita ao lado de um cadavérico e pequenino cão.
Pelos latidos que ouvi, achei que se tratava de um cachorro de porte maior.
Mas o pequeno cão além de muito doente, não conseguia sequer levantar a barriga do chão.
Mas emitia com muita autoridade um latido alto e afinado.
Fiz questão de silenciosamente sentar ao lado dos dois e apreciar a música que era muito triste,
melancólica e sentimental.
Foi quando o senhor parou de tocar seu instrumento.
E encarando o nada me falou:
-Não preciso ter olhos para sentir sua tristeza filho!
Fiquei em silêncio. Não entendia ao certo o que ele falava.
E deixei o velho cego continuar.
-Qual sua idade?
-treze anos!
O velho riu desgovernado e passou a mão sobre a cabeça do pobre cachorro.
-Você vai sofrer muito ainda filho.
-Como?
-O que sentes hoje, é nada perto da dor da perda! Como é mesmo teu nome?
-Meu pai me chama de Zero!
-Zero?
-É. Ele disse que eu pareço com um personagem de histórias em quadrinhos!
-Sabia que um dia você ia me encontrar. Já estava quase desistindo. Porque demorou tanto?
Não estava compreendendo direito o que ele falava. Comecei a duvidar de sua lucidez.
-Não sei do que o senhor está falando!
E o velho esticou em minha direção a gaita que até então tocava com muita propriedade.
-Tome filho, é toda sua!
Peguei-a. E sentindo o peso enorme daquela singela gaita em minhas mãos.
Tentei devolvê-la para seu dono. Mas era tarde. Já de costas para mim,
o velho apoiava-se pelas paredes e entrava em sua casa.
-O senhor deve estar confundindo-me com outra pessoa. Não sei tocar!
-O Blues não é música garoto. O Blues é um espírito que vaga sem rumo a procura de um homem triste.
E fechou a porta na minha cara.



Escrito por fernandobluesborghi às 14h24
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 BLUES DO RECRUTA


Era a primeira vez que utilizava aquela até então desconhecida e escura rua.
Tive que mudar meu tradicional trajeto da escola para casa, devido a uma festa
que estava sendo realizada na Avenida Principal. Fazendo com que todo o tráfego
por ali fosse impedido.
Como sempre detestei movimento, pessoas e comemorações. Resolvi desviar
de tudo aquilo por uma rua secundária.
Havíamos mudado da capital para aquela promissora cidade do interior  a muito pouco tempo.
Pelos meus cálculos, era a sétima ou oitava vez que trocávamos de cidade em menos de dois anos.
Nunca tive muito tempo de conhecer a fundo as cidades por onde íamos passando,
e nem sequer fortalecer laços de amizades muito constantes com pessoas mais próximas,
já que o curto tempo de convivência por onde quer que o banco enviasse meu pai (e por conseqüência nossa família),
acabou colaborando para que fortalecesse em mim uma personalidade depressiva e invulnerável.
Fazendo com que me sentisse cada vez mais deslocado no mundo.
E no fundo tudo isso me fazia um bem danado.
Acelerei um pouco mais o passo ao entrar naquela pequena e estreita rua.
O escuro da noite e o silêncio da falta de movimento para mim soavam de forma prazerosa.
Definitivamente gostava muito daquilo. Sentia-me bem quando caminhava sozinho noite adentro.
Mas mesmo sentindo-me à vontade, fazia questão de acelerar as passadas para evitar qualquer tipo de surpresa.
E foi exatamente isso que acabou acontecendo.
Do nada um calafrio me gelou a espinha. Uma sensação ruim de desconcerto me tomou por completo.
Percebi que meus sentidos aguçaram e tentei em vão compreender o que estava acontecendo.
Perplexo com aquele sentimento que nunca havia experimentado parei de caminhar.
E o que é pior. Sem entender direito o que acontecia.
Estático no meio da calçada, comecei a ouvir ao longe o som de uma gaita acompanhado de um uivo de um cão.
Eu que nunca havia despertado qualquer tipo de interesse por música,
me senti tocado por aquela melodia. Algo naquelas notas mexia comigo,
despertava um prazer que não havia provado antes. Feito um zumbi,
enfeitiçado pelo som emitido pela solitária gaita fui sem pensar duas vezes direto e reto ao seu encontro.

continua. . .




Escrito por fernandobluesborghi às 14h13
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