Todos os Cafajestes que
conheci na minha vida
são uns anjos
de pessoas
Leila Diniz

Escrito por fernandobluesborghi às 20h47
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Neste ano, houve algumas discussões sobre a criação de leis para fomentar a produção nacional de quadrinhos. Embora nenhuma tenha vingado, teve seu lado bom: instigou o debate, algo que inexistia até então. Uma das idéias defendidas é que, antes de qualquer lei, o quadrinho brasileiro deveria se firmar por si, primando pela qualidade das obras, a exemplo do que ocorreu com o cinema. A discussão é pertinente e não se encerrou. Mas os defensores da relação quadrinho-qualidade encontram bons argumentos nos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon. Os dois têm se mostrado ótimos contadores de histórias. Como em "10 pãezinhos: Mesa para dois", que começou a chegar às livrarias e lojas especializadas em quadrinhos nesta virada de semana (Devir, R$ 15). O álbum é uma história de amor, construída aos poucos, nos detalhes. Uma jovem garçonete, Júlia, faz um trabalho extra para um escritor, Sr. Milo. O serviço: conversar com ele e servir de inspiração para os diálogos da obra que escreve. Dessa relação e da vida no bar a trama vai sendo moldada e descoberta. Duas referências merecem menção. Os autores usaram figuras reais para compor as figuras fictícias. O dono do bar onde a protagonista trabalha é a cara do escritor Monteiro Lobato, criador do "Sítio do Picapau Amarelo". Não é por acaso que também se chama Monteiro na obra dos gêmeos. Milo, o romancista que contrata a garçonete, é uma homenagem declarada a Lourenço Mutarelli, autor de livros e de quadrinhos ("O dobro de cinco", "O rei do ponto", "A soma de tudo"). Mutarelli -tão elogiado pelo meio editorial e pela crítica, sempre generosa com ele- anunciou neste semestre que vai largar os quadrinhos. Um raro caso de autor que se deu bem nesse difícil mercado abandona o barco. Embora a decisão deva ser respeitada, não deixa de ser uma ducha de água fria no tocante à discussão sobre o fomento da produção nacional. E aumenta a responsabilidade de quem continua produzindo, caso dos gêmeos. Gabriel Bá e Fábio Moon têm muito a somar para a consolidação de um mercado nacional. Aliam qualidade (de texto e de arte) sem deixar de lado a vontade de produzir e de distribuir as histórias que criam. Se uma editora não se interessa pela obra, voltam às origens: publicam o material em forma de revista independente e vão vendendo uma a uma. Como já fizeram neste ano, diga-se de passagem.

Escrito por fernandobluesborghi às 22h27
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Escrevi esse conto a exatamente um ano atrás,
quando tinha o outro blog. E resolvi republicá-lo
aqui hoje.
Feliz Natal Jack Kerouac
Nada mais que coincidência. Só pode ser. Combinado é que não foi. Não faz sentido. Foi fechar o portão de casa e entrar no meu Opalão velho de guerra, para uma chuva que estava ali só esperando eu colocar os pés na rua cair feito um dilúvio, e me pegar de calças curtas literalmente. Pelo ritmo forte que a água despencava, em menos de horas Curitiba toda estaria alagada com certeza. Não havia muitas opções, já se passavam das quatro da tarde e tinha prometido pros velhos que chegaria sem falta pra ceia de Natal. E ai de mim se não chegasse. Se bem que o tempo estava a meu favor, sempre fui um cara prevenido e estava muito adiantado. Afinal, da Capital até Guaratuba onde os velhos moram eram menos de duas horas. Quando consegui sair dos enormes engarrafamentos que se formavam na saída da cidade e pegar finalmente a estrada em direção ao litoral,liguei o rádio e Jim Morrison cantava em alto e bom som: “Riders On The Storm”. Coincidências à parte uma das minhas preferidas do Doors. A chuva aumentava de tal maneira que meus limpadores de pára-brisa começaram a não dar conta do serviço. Era muita chuva. Não conseguia enxergar nada, era muito arriscado, não havia outra opção senão estacionar o Opalão e esperar aquele pé d’água passar. Esperei por mais de meia hora e o ritmo da água não diminuía nem com reza. Não havia muito que fazer a não ser escutar aquela única e solitária rádio que eu sintonizará na saída de Curitiba e que em menos de uma hora havia tocado: “Riders On The Storm”, pelo menos duas vezes. Por incrível que pareça, aquela situação de inércia em que eu estava envolvido ali no meio daquele dilúvio, me deu sono. Estava quase dormindo quando ouvi uma batida no vidro do lado do passageiro. Assustei-me ao ver que era uma pessoa batendo e gesticulando sem parar. Aquele vulto indefinido em meio à chuva me deixou nervoso. Liguei o carro e não pensei duas vezes na possibilidade de ser um assalto ou coisa que o valha. O Opalão foi saindo devagar e pelo retrovisor o vulto indefinido foi ficando para trás quando: “Riders On The Storm”, tocou pela terceira vez naquela tarde. Meus pés agiram por contra própria ao frear o carro. Olhei novamente e o vulto permanecia parado no acostamento. Algo me dizia que eu deveria voltar e ajudar aquela pessoa. Nunca foi muito da minha índole se preocupar com o próximo. Mas eu não podia deixar quem quer que fosse ali no meio daquele aguaceiro de jeito nenhum. Voltei, abri a porta e ele entrou. -Eu vou ensopar todo o seu banco! -Não esquenta a cabeça. Entra ai rapaz! O cara tinha um sotaque meio americano. Disse-me que não bateu no vidro do meu Opalão pra pedir carona, e sim para perguntar se eu tivera um treco. Ele gostava de andar, me confessou que não existe coisa melhor que andar debaixo de chuva. Pareceu-me ser uma boa pessoa, não era lá de muita conversa e sequer me disse seu nome quando perguntei. E assim que a chuva diminuiu descemos rumo ao litoral. Ao chegarmos em Matinhos, me pediu que o deixasse-se num posto de gasolina, pois precisava trocar de roupa e tomar um banho quente. Sem muita conversa nos despedimos e segui rumo a Caiobá. A cidade parecia ilhada. Se em Curitiba a chuva caiu forte ali não tinha sido diferente. O mar estava revoltadíssimo. A cidade estava ilhada e já se passavam das oito horas da noite quando consegui chegar ao Ferry-Boat, que me levaria até Guaratuba. Havia muita confusão no local e um guarda rodoviário que tentava colocar ordem na situação veio ao meu encontro. -O senhor ia pra Guaratuba? -Ia porque? -Aconteceu um acidente essa tarde e o serviço só vai ser normalizado amanhã de manhã! -O que aconteceu? -O Ferry-Boat virou no meio da Tempestade com mais de cinqüenta carros em cima, uma tragédia, a defesa civil calcula que pelo menos duzentas pessoas estão desaparecidas em alto mar! -Puta que merda! Virei o carro em direção a Caiobá e no primeiro orelhão que encontrei liguei para os velhos, que a essa altura do campeonato estavam desesperados achando que eu estava no Ferry-Boat que virou. Avisei-os que amanhã assim que o serviço normalizasse, atravessaria o mar e com certeza passaria o dia de natal com eles. Nada mais me restava a não ser procurar um hotel, tomar um banho e dormir um pouco. E quem disse que havia vagas disponíveis nos hotéis de Caiobá. Rodei por toda a cidade e nada. Não me restava outra opção, senão ir até Matinhos. A via-sacra se repetiu e os relógios marcavam dez e meia da noite quando desisti de procurar um hotel. Dormiria no Opalão mesmo. Fui até um posto de gasolina e decidi: Passaria meu natal ali, no balcão de uma lanchonete de beira de estrada tomando cerveja. Assim foi, quando faltavam exatos vinte minutos para meia noite a rádio da lanchonete começa a tocar Rider On The Storm, e sinto uma mão no meu ombro: -Hey Man! Era o cara que eu havia dado carona na estrada. Ele estava não só com outra roupa, mas com um semblante mais suave. Parecia mais tranqüilo. Sentou-se comigo e fomos derrubando cervejas uma atrás da outra. Parecia outra pessoa. Contou-me que era um errante estradeiro. Que gostava mesmo era de sentir a liberdade que só uma vida sem destino pode proporcionar. Suas histórias eram incríveis. Rodou por quase toda América, conhece seu País como poucos. Quando eu disse para ele que aquelas histórias dariam um livro fantástico ele deu sonoras gargalhadas, e disse que pensaria no caso. Nos divertimos e as horas passaram. Os rojões espocavam em meio à chuva lá fora e dentro da lanchonete todos se cumprimentavam. Meio que na surdina era meia noite e finalmente o Natal chegara. Virei-me para meu companheiro easy rider, e apertando forte sua mão disse: -Como o tempo passou? -Merry Crhistmas Man! -Feliz Natal... -Jack! -Jack? -Kerouac! Feliz Natal Jack Kerouac!

Escrito por fernandobluesborghi às 12h58
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