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Café Van Gogh ( 7 )

-Eu não sou sua mãe Heitor!
As cicatrizes de seu ódio eram tão visíveis que mesmo se ela
desejasse seria impossível disfarçar.
-Graças a deus Lillian!
Eu tentava a toda custa deixar o clima um pouco mais ameno,
mas o que ela queria mesmo era agredir-me sem medir as conseqüências.
-Essa palhaçada toda chegou no limite. De agora em diante você
vai ter que optar.
-Optar? Como assim!
-Você tem decidir logo. Ou resolve viver de uma vez por todas ou...
-Ou o que?
Minha sempre decidida irmã gaguejou um pouco, excitou em pensamentos
bifurcados e após um longo gole em um copo de água, fulminou-me sem
sequer ter coragem de me encarar nos olhos.
-Ou trate de procurar a morte de maneira mais eficiente!
Não consegui sequer ficar com raiva dela. Apenas sorri.
Mas não um sorriso cínico, imprudente ou desavergonhado. Era apenas um
sorriso de quem não acreditava que aquela conversa pudesse chegar a
algum lugar. Meu silêncio fez com que ela tomasse iniciativa e destampasse
a caixa de ferramentas.
-Você sabe Heitor, que eu só quero te ajudar. Sou a última pessoa
no mundo que desejaria a morte a alguém. Você sabe que eu sempre fui contra.
Quem diz que a aceita mente.
-Sabe que ouvindo você falar assim, me caiu a ficha. Nunca vi você
num enterro Lillian?
-Raramente vou a um a enterro! Sou contra.
Ao perceber que ela havia se acalmado, achei que podíamos dar por encerrado
aquela lenga-lenga piegas e de caráter altamente duvidoso.
-Onde você quer chegar?
-Acho que você deveria se internar novamente!
-Que?
-Não vou discutir Heitor. Você sabe muito bem que tem uma doença
chamada adicção e que uma de suas manifestações é o uso e abuso de álcool e drogas.
Lembrei de meu falecido pai na hora. O velho conseguia entender as
intenções das pessoas nas primeiras palavras. E numa situação dessas
ele com certeza esbravejaria aos quatro cantos que: A esperteza desonesta
vista como valor se impõe pela autoridade.
-Eu sei Heitor que você vai espernear, esbravejar, citar nosso pai com suas
velhas frases de efeito e assim que eu sair desse maldito apartamento vai
seguir até a geladeira e esvaziar a dúzia de latinhas de cerveja estupidamente
geladas que o esperam.
-Que cerveja? Tá louca?
-Olha lá na geladeira então!
Mesmo correndo o risco de fazer o papel de palhaço abri a geladeira.
- Eu fiz questão de comprar uma dúzia de Bohemias e deixar a tua disposição.
O pior é que era verdade. As latinhas estavam estupidamente geladas a sorrir
para mim. Era só eu levar minha mão até uma delas, ouvir o generoso e
calculado estampido da loucura e aproveitar.
-É você dar uma golada na primeira latinha pra desembestar uma reação em cadeia
e colocar você de volta ao inferno. A escolha é tua meu irmão.
Se quiser colocar tua vida nos eixos é só me ligar e a manhã mesmo te levo pra clínica.
Caso contrário, é só sentar e desfrutar do.... do.... como é mesmo
que você chama essa merda?
-Mel dos Deuses!
-A escolha é tua!

continua...


 



Escrito por fernandobluesborghi às 09h22
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Café Van Gogh ( 6 )

-Acho melhor a senhora ter calma nessa hora Dona Lillian.
Não adianta tomar atitudes precipitadas, o diálogo e a sutileza
têm que imperar em momentos como esse.
-Há quantos dias o Heitor está internado aqui Doutor?
-Hoje completa uma semana!
-Uma semana?
-Mas fique tranqüila que o pior já passou!
-Como assim pior?
-Quando nossa equipe foi chamada para socorrer seu irmão,
duvidávamos que ele ia se recuperar tão rapidamente.
Ele se encontrava em vias de ter um segundo ataque epilético
em pleno calçadão no centro da cidade.
-Ataque epilético meu irmão?
-O estado dele não é dos melhores, mas o pior já passou!
Quando abri os olhos e vi minha irmã ao lado do médico chorando
copiosamente, tive vontade de estar em qualquer lugar do mundo.
Menos naquela cama de hospital. A vontade que ela tinha era
a de me estrangular. Seus olhos não mentiam jamais.
Ela estava em estado de choque.
-Que aconteceu com você Heitor?
Os canos espalhados por minha boca, braços e peito impediam que
eu fizesse qualquer movimento mais brusco. Mas mesmo assim,
tentei em vão acalmá-la, segurando suas mãos frias que transbordavam
ódio, rancor e perdão.
-Estou vivo Lílian, isso é o que importa!
O médio sorrindo me apoiou.
-Isso mesmo seu Heitor. É isso ai!
Mas minha irmã não fez muita questão de concordar.
-Que merda Heitor, você prometeu que não ia mais beber!
O que deu em você?
O médico percebeu que minha até então serena e delicada irmã perdera
o controle emocional e aumentando o tom de voz demonstrou que estava
magoada e ressentida.
-Droga Heitor, você ia ser enterrado como indigente.
E começou a chorar de forma descontrolada e impulsiva.
-Acho melhor a senhora me acompanhar.
Mesmo a contragosto, o médico conseguiu convencê-la a sair do
quarto e antes de fechar a porta e me deixar à vontade com meus
fantasmas, Lillian demonstrou que não estava muito disposta a me ajudar.
-Se é a morte que você procura Heitor! A caminhos bem mais curtos
e eficazes para encontrá-la!
Fiquei exatos quinze dias internado naquele sonolento e entediante hospital.
Duas semanas que de tão longas se transformaram em meses, anos, séculos.
Não via a hora de dar o fora daquele lugar solitário e insosso.
Ao chegar a minha casa me senti um pouco mais vivo. Mesmo estando em
dúvida se era realmente essa a sensação que gostaria de estar provando.
Apesar da enorme quantidade de sangue que escorria pelo ralo, misturado
com água e sabão ao tomar banho, eu havia melhorado consideravelmente.
Até receber a visita nada amistosa de minha cada vez mais
intempestiva irmã.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 09h08
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Café Van Gogh ( 5 )

A quantidade de cachaça que consumíamos aumentava a cada boteco.
Por duas vezes vomitei sangue. Meus companheiros por mais de uma
vez fizeram questão de me ignorar na hora de fazer o litro girar pela roda.
Senti que todos sem exceção estavam esperando que eu desistisse, era visível
em seus olhares e sorrisos cada vez tão ou mais agonizantes que o meu.
Mas como todo bom e velho teimoso que se preza eu não queria dar o braço
a torcer de jeito nenhum e tentava acompanhá-los nas talagadas em sucessivos
litros de cachaça que a cada rodada se tornava mais amarga e fétida.
Paramos nossa caminhada cidade adentro numa viela escura no centro da cidade.
A essa altura nossa matilha de imundos passava de meia dúzia.
Quando resolvemos nos deitar em meio a caixas de papelão e latas de lixo
senti o efeito devastador do álcool em meu organismo.
Um fogo consumia minhas entranhas feito a mais ardente das fogueiras lançando
em meu hálito um arroto com cheiro de enxofre.
Senti meus rins ardendo em chamas e vão suplicar por água. Segundos antes de
desmaiar em cima de uma embalagem de um televisor de 29 polegadas, pude meio
que turvamente reparar que uma velha mendiga surgia na boca do beco
acompanhada de um carrinho cheio de papéis, um galão de cinco litros de vinho
e um cachorro manco. E é obvio foi efusivamente  recebida pela corja.
-Senta aqui do meu lado gostosona!
Gritava o que meu salvou a pele no zoológico.
-E esse vinhão ai? Tem jeito!
Foi o que sussurrou o menor e mais disposto do bando.
O orgulho de ser desejada de forma unânime por aquele verdadeiro
Bando do Cão Sem Dono, com certeza deve ter subido a cabeça daquela
que um dia foi uma mulher de traços pitorescos e personalidade forte. 
Com um sorriso sacana, banguela e esfarrapado a pobre diaba não conseguiu
deixar transparecer que era com certeza uma devoradora de homens.
O dia já estava raiando quanto senti um forte cheiro de podre que me
acordou aos poucos. Era um cheiro muito forte, não consegui defini-lo
a princípio por se tratar de uma mistura mórbida de excremento e azedo.
Ao ver a luz do sol entre nuvens carregadas e prédios cinzentos tive a
certeza que ainda estava vivo, e sorrindo para mim mesmo senti que de
forma brava e determinada havia sobrevivido aquele pesadelo que eu mesmo
havia me metido. Coloquei-me de pé, e senti a pressão de meu corpo reagir de
forma rápida e invisível fazendo o mundo girar. Perdi meu pé de apoio e cai novamente,
só que dessa vez no lugar do cimento frio e duro cai em cima de um corpo.
Era o da velha mendiga que por último havia se juntado ao bando.
E o cheiro que me acordou e que eu não conseguia definir do que era,
vinha do corpo dela, já sem vida rodeado de moscas e baratas.
Seu rosto parecia ter sido esmagado a duros golpes, estava completamente
esfacelado e irreconhecível. Um enorme e cirúrgico corte que iniciava
na altura do pescoço e ia de encontro à vagina demonstrava que à noite
de terror havia sido longa e nojenta.
Sai daquele beco cambaleante, enojado e mentalmente abalado depois de sentir
na pele a descida até o inferno que rodeia os seres humanos e os transforma
dia após dia em animais cada vez mais voltados para o seu interior podre e imundo.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 12h31
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Café Van Gogh ( 4 )

Quando pisei na rua e respirei fundo senti em meus pulmões o
cheiro da fumaça dos automóveis misturado a benevolente fragrância
de menta exalada pela liberdade. As sirenes, buzinas, latidos, berros,
gritos, gemidos e cheiros desprendidos dos bueiros das ruas de trânsito
louco e desvairado da cidade onde há exatos quarenta anos habitava me
soavam efêmero e egresso.
Segui como que em transe direto ao Café Van Gogh. Lembro que fui o
primeiro a chegar. As mesas ainda vazias de início de tarde aos poucos
foram tomadas por hordas de todos os tipos, e num frenético vem e vai
sem fim aos poucos foi avançando pela noite, madrugada e aos poucos
o sol apontava no horizonte e fui gentilmente convidado a me retirar.
-Não leva mal não seu Heitor, mas são quase sete da manhã e temos que
fechar as portas e descansar!
Senti que grunhi alguma coisa antes de atirar meu talão de cheque
sobre a mesa. Levantei e tentei em vão me equilibrar. Minhas pernas não
obedeciam e em questão de segundos levei meu primeiro tombo do dia.
Conforme avançava pela cidade aos poucos ia tropeçando aqui e acolá
e por muito pouco não fui atropelado por um motociclista que quase
me manda pro inferno sem direito a passagem de volta.
Devo ter andando em círculos, pois já se passavam das onze da manhã
quando olhei para o que restou de meu relógio de pulso e ainda me
encontrava na frente do Zoológico Municipal, a menos de duas quadras do Van Gogh.
Sentei defronte a jaula dos macacos e de imediato soltei um jato
de vômito longo e espesso e mesmo não estando muito consciente do
que fazia, senti que por pouco não arranquei minhas amídalas que se
encontravam em estado bastante avançado de decomposição.
Com o sol a pino, fervendo feito o dia mais quente do verão fui
sentindo lentamente o peso enorme de minhas pálpebras e fui apagando
aos poucos. A única coisa que lembro perfeitamente antes de apertar
o foda-se e em transe absoluto roncar feito criança em pleno banco
de cimento armado, foi que num ato relaxante me mijei todo.
E o que é ainda pior. Dormi sorrindo.
Senti um cutucão em minha cabeça, uma espécie de apunhalada ou algo parecido.
Imediatamente abri os olhos e conseqüentemente senti o mundo zunir em minha cabeça,
parecia que uma bomba explodia a cada segundo dentro de meu crânio.
- Acho melhor você dar o fora antes que o guarda apareça.
Um mendigo havia me acordado. Só não sabia distinguir se aquele intenso
cheiro de podre que exalava no ar era meu ou dele.
-Ele é chato pra cacete. Se pegar você dormindo aqui, chama a polícia na hora.
Procurei meu relógio no pulso e não encontrei. Da mesma forma que a carteira
e os sapatos haviam sumido dando lugar a uma dúzia de arranhões e cortes
devidamente espalhados por todo meu corpo.
-Vai um gole ai?
Eram dez para as seis da tarde, quando dei a primeira golada no litro
de cachaça de meu até então estranho e caridoso amigo.
Eu e meu companheiro avançamos pelas ruas a esmo. Meus pés aos poucos começaram
a sangrar e a velocidade de nossas passadas diminuía cada vez mais.
Conforme nos dirigíamos pelas beiradas escuras da cidade outros demônios
em pior estado que nós se juntavam à pequena caravana de moribundos que
solidariamente rachavam os litros de cachaça que pouco a pouco surgiam pelo caminho.
Conforme o submundo podre se juntava, estórias de dinheiro e desgraças
familiares eram contadas de maneira natural. Ao cair das cortinas a solidão
permeava a maioria. E todos os dramas pessoais possuíam um final no mínimo
original: A desgraça regada a goles e mais goles de insatisfação,
fraqueza e depressão. E todos tinham em comum o choque da queda a lona fria.
Definitivamente ser um perdedor é uma das únicas coisas no mundo que esta ao
alcance de todos. Quase não há quem não seja!Um dia nas ruas cercado do que
restou da humanidade é capaz de ensinar mais que dez anos dentro de uma faculdade.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 08h48
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Café Van Gogh ( 3 )

Quem dera as coisas funcionassem dessa maneira. Seria muito bom
se todos os nossos mais profundos desejos por mais puros
e verdadeiros que fossem pudessem se tornar realidade.
Tentei a todo custo retornar a minha velha rotina.
Mas era impossível. Estava me sentindo deslocado,
angustiado e comecei a temer por minha sanidade ao me pegar
filosofando em inúmeras mesas de bar com amigos invisíveis sobre a morte.
-As religiões, em certo sentido, procuram habituar o
homem com a idéia da morte.
-Isso é verdade Heitor!
Engraçado como depois da décima rodada de cerveja até
seu inimigo mais cruel e tinhoso concorda com suas banalidades.
-Mas, com ou sem religião, a morte é o fato mais importante da
vida, e o homem será sempre um desgraçado enquanto não aceitar
placidamente a rudeza, a estupidez e a necessidade de
seu próprio fim.
E em meio a aplausos, uivos e assobios me sentia cada
vez mais idiota frente aos falsos amigos que diariamente
me faziam companhia.
-Muito bem Heitor!
-Garçom, trás mais uma rodada por conta do filósofo aqui!
E pouco a pouco fui retornando ao velho hábito de chegar
em casa de madrugada, sem nenhum tostão no bolso e
completamente bêbado.
Não podia acreditar que a simples visão de uma garota que
eu sequer conhecia podia causar tamanha impaciência e fazer
com que meus gestos desajeitados tomassem proporções desmedidas,
causando mudanças radicais a começar pelo meu emprego.
Após faltar por dois dias seguidos causados por bebedeiras
sem fim e não estar em condições de sequer levantar da cama,
fui chamado à sala do chefe.
-É o seguinte Heitor. Gosto muito do teu trabalho, você é um
funcionário exemplar, trabalha com a gente há tanto tempo,
e por ter uma consideração acima da média para com você
que te chamei aqui.
Uma pequena ansiedade me correu a espinha, mas me contive
num silêncio afetado e só escutei.
-A partir de amanhã você está de férias!
Ameacei dar uma risada, mas me contive.
-Como assim?
-Férias Heitor. Vá pra casa. Descanse um pouco e relaxe.
Quem sabe uma praia, um sol te faça bem. Volte daqui trinta dias.
Não queria admitir, mas ele estava falando sério.
-Mas não estou me sentindo mal!
Não deveria ter dito essa última frase. Antônio meu patrão,
nunca foi muito cheio de dedos, como demonstrou no início de
nossa conversa. Acendeu um cigarro, levantou da mesa, fechou
a porta e finalmente voltou ao seu estado natural: Ignorante,
alterado e sem papas na língua.
-Você jurou que tinha parado de beber porra! Agora deu de vir
trabalhar chapado todo dia merda. Tá pensando que isso aqui
é casa da mãe Joana, caralho!
-Tinha certeza que sua terapêutica do perdão ia durar pouco!
-Heitor, você não vem trabalhar a dois dias esqueceu? E quando
aparece briga com a minha melhor cliente! Tá querendo me
derrubar porra!
-Aquela velha de merda, dona daquele supermercado de bosta
estava precisando ouvir umas verdades!
Ai o papo ficou a altura.
-Esqueceu que é ela quem paga teu salário?
-Ela me encheu o saco!
-A, então ela encheu o teu saco, que coisa!
-Aquela velha, tava merecendo. Há tempos que vinha procurando confusão.
Pegou eu meio revoltado e achou o dela!
-Que foi que aconteceu?
-Primeiro ela perguntou se não tinha gillete na minha casa,
que a minha cara estava parecendo uma floresta amazônica.
Depois perguntou da maneira mais cínica possível: Por que os caras
que trabalham em escritórios têm retratos de sua famílias nas mesas?
Será que é para não esquecer que são casados?
-E o que você respondeu?
-É exatamente pra isso: Oba, cinco da tarde. Hora de ir para os
bares pegar umas putas. Espera ai, olha esse retrato! Eu tenho
mulher e filhos! Tinha me esquecido! É melhor ir para casa.
Ele ficou vermelho, atirou o cigarro longe e abrindo a porta
com força me desejou boas férias.
-Some daqui seu filho da puta!

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 08h56
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Café Van Gogh ( 2 )

Meus olhos ardiam feito duas pérolas em chamas.
O dia naquele maldito escritório custou a chegar ao final,
e para meu deleite especial no que eu ameacei colocar os pés
pra fora do prédio um tremendo temporal desabou sobre a cidade.
Quando a chuva finalmente deu trégua, caminhei a passos
largos em direção ao semivazio Café Van Gogh onde só sai
por volta das três da manhã. Bêbado, com frio e injuriado por
não tê-la encontrado como no dia anterior.
Acordei com o telefone urrando feito louco.
Ainda meio sonolento e sentindo o mundo girar de maneira
louca e descompassada encarei o relógio e quase entrei
em desespero. Já se passavam das duas horas da tarde.
Arrastei-me até a sala e não consegui chegar a tempo até o aparelho.
Meio cambaleante, trombando em quase todos os móveis da sala
consegui chegar são e salvo até o banheiro e por um momento
não me reconheci no espelho. Estava com a cara toda amassada,
como se tivesse levado uma surra. Estava me sentindo completamente
curtido. Não tive a oportunidade de me auto-analisar por muito mais tempo,
já que o telefone voltou a soar alto e forte.
Era Lillian minha irmã mais nova.
-Aconteceu alguma coisa?
-Não por que?
-O povo do escritório acabou de me ligar, dizendo que você
não apareceu pra trabalhar! Disseram que teu comportamento não
estava muito natural ontem. Aconteceu alguma coisa?
-Não!
-Tem certeza?
-Acho que sim!
-Tô achando sua voz tão estranha, tão distante? Você voltou a beber Heitor?
-É a lógica torta do coração!
-Que?
-Tem certas coisas que não precisamos entender. Temos apenas
que seguir nossos instintos e deixar acontecer!
Errei novamente. Lillian (minha eterna e intransigente irmã
mais nova), definitivamente não era a pessoa mais indicada
para me dar um conselho aquela altura do campeonato.
Sei que no fundo ela estava querendo me ajudar, como das outras
inúmeras vezes que em vão colocou a minha disposição toda sua
experiência em relacionamentos. Mas sentia que dessa vez era
diferente, e por ser dessa forma, resolvi me afastar da hipótese
de me aproximar de uma pessoa que sequer conhecia, tinha visto
apenas uma vez e que de certa forma havia me atraído muito.
Resolvi que não ia entrar nessa barca furada. Não queria me envolver.
Estava me sentindo bem cada vez mais solitário e sóbrio.
Não seria um simples rosto na multidão que iria fazer com que
minha vidinha corriqueira desse uma guinada rumo ao imprevisível.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 09h52
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Café Van Gogh

Foi num fatídico final de tarde duma segunda-feira perdida do mês
de novembro que naquela pequena viela aparentemente sossegada,
recheada de bares, pessoas e personalidades das mais diferentes
possíveis que tive o prazer de encontrar Isabela pela primeira vez.
Ela estava acanhadamente sentada no seu canto, rodeada de amigos e
copos de cerveja.
Seus lábios carnudos juntamente com um leve sorriso amarelo me
cativaram no primeiro bater de olhos. Eu que estava apenas de passagem
a caminho de casa, resolvi imediatamente sentar-me numa mesa a
poucos metros dela. Pedi a olho uma dose de qualquer bebida só para
poder ficar atentamente observando-a em seus gestos milimétricamente
estudados que pouco a pouco iam causando em mim estragos irreversíveis.
Feitiço? Mandinga? Sei lá o que aconteceu! Senti-me atado a ela
por poderes inexplicáveis, algo que nunca havia me acontecido antes.
Como diria minha mãe: O Homem é sempre o último a admitir que
o amor manipula a natureza!

Aquela linda morena de olhos claros, pele lisa, gestos contidos
e absolutamente dona de um silêncio demolidor canalizava toda a
atenção da mesa em meio a infinitas rodadas de cerveja e porções
de batatas fritas.
Estava tão enfeitiçado por aquele pedaço de paraíso versão carne e
osso, que sequer fiz questão de observar as pessoas que a cercavam.
Só pode ter sido o estômago vazio a minha ruína. Ao tentar virar o
quarto copo de whisky senti o mundo girar, a guria aos poucos se
multiplicar em dezenas e meu estômago querer sair pela boca.
Tentei em vão manter a guarda firme, mais era impossível.
Precisava vomitar!E se não tivesse aos trancos e barrancos
chegado ao banheiro rapidamente, teria colocado todo meu almoço
pra fora ali mesmo na mesa.
Ao voltar do banheiro me sentindo um novo homem, acabo dando de
cara com a mesa da guria completamente vazia. Ela tinha dado
o fora com seus amigos a menos de cinco minutos, conforme disse
o garçom. Discretamente, como quem não queria nada, interpelei-o
com um pouco mais de entusiasmo e ele acabou me confessando:
-Ela se chama Ângela!
-Está sempre por aqui?
-Vixe! É freqüentadora assídua.
-Sempre acompanhada daquele bando de amigos?
-Não, na maioria das vezes vem sozinha! Os malas vão chegando
aos poucos!
Passei a noite em branco.
Não consegui de maneira nenhuma fechar os olhos. Só conseguia
pensar nela.
O dia custou a clarear. Aquela noite parecia eterna.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 12h22
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