Café Van Gogh ( 14 )
E o pior é que era a mais pura verdade o que ela havia dito. Ao chegarmos até o cemitério, pulamos o muro lateral já com um pouco de dificuldade, devido ao efeito do alcool, e caminhamos em meio a um cem número de túmulos até encontrarmos um com seu nome, fotografia, data de nascimento e outras informações peculiares como uma frase de efeito logo abaixo da data de nascimento: “Ângela: De Musa, Para Diabo de Saia”. Não resisti. Quando ela ajoelhou-se frente a seu próprio túmulo, tirou uma vela do bolso e acendeu, foi demais para um pobre mortal feito eu. Juro que tentei disfarçar, segurar minha boca com as mãos, mas o riso vinha numa velocidade desenfreada e não consegui me manter absorto frente aquela bizarrice. E comecei a rir. Como a muito não o fazia. Ângela me encarou resignada e franziu a testa antes reprovar minha atitude. -Cada um com a sua mania. -Claro Ângela, não me leve a mau! -Vivemos num pais democrático. Onde cada qual tem total liberdade de exercer sua mais insana loucura. -Não quis te ofender! Mas você há de convir comigo que não é muito normal ver alguém visitar sua própria sepultura! -Já dei muito trabalho para minha família. Sempre fui à ovelha negra, a porra louca, a descabeçada. Sempre, desde que me conheço por gente venho dando trabalho pra Deus e todo mundo. Num ato de lucidez, creio eu, fiz questão de deixar tudo certo quando há minha hora chegar. E não é só essa linda sepultura. Todas as outras decisões quanto a minha partida estão há muito tempo resolvidas. Quando eu decidir sair dessa, minha família não terá com que se preocupar. Enquanto Ângela falava, ouvi sirenes soando ao fundo. Não quis interrompê-la, mas parecia que as sirenes aos poucos se aproximavam do cemitério. -Dá o fora enquanto é tempo Heitor! -Que? -Eles estão chegando. -Eles quem? -Estão vindo atrás de mim. Não é a primeira e nem será a última vez que escapo daquele maldito lugar. -E todas às vezes você vem parar exatamente aqui? -Todos retornamos ao lugar onde nos sentimos bem, verdade ou não? -E das outras vezes o que eles fizeram? -Me encontre amanhã as duas da tarde no Café Van Gogh! -Mas e você? -Faça o que eu digo e dá o fora enquanto é tempo! Ela me deu um longo beijo gelado na boca, as sirenes cessaram e um espetáculo pirotécnico de luzes em frente ao cemitério, indicava uma grande quantidade de viaturas. Levantei-me ainda indeciso, não sabia exatamente o que fazer, e antes que eu sumisse em meio à escuridão do cemitério vazio, Ângela fez questão de me lembrar novamente. -Não se esqueça! Duas da tarde em ponto no Café Van Gogh!
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Escrito por fernandobluesborghi às 08h56
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Café Van Gogh ( 13 )
Cena digna de filme americano. É o mínimo que posso dizer. Nós dois rasgando a estrada numa camionete roubada, bebendo Jack Daniels, ouvindo Credence Clearwater Revival no último volume do rádio e sendo seguidos ao longe por uma dúzia de motoqueiros mal encarados. Nunca nem sequer em sonho poderia imaginar uma situação feito essa. -I Heard It Through The Grapevine ! Ângela acompanhava a música, e não desgrudava seus olhos um segundo sequer da estrada. Parecia que estava realizando um sonho de adolescente ou algo do gênero. Fazia questão de demonstrar, sem medo algum que estava curtindo tudo aquilo. E de fato estava. E muito. -I heard it through the grapevine, and I'm just about to lose my mind. Honey, honey yeah. Adoro essa música! Esses caras são muito bons, cê não acha Heitor? -Acho sim! -Que cara é essa? -Como assim? -Esquisito, parece que está tão distante? Que aconteceu? -Nada, impressão sua! -Vai me dizer que o Jack já fez efeito? -Nada ver! -Sério mesmo? - Por que você está dizendo isso? -Sei lá , cê ficou quieto de uma hora pra outra. Está ai encurucadão, parece que não está curtindo. Que foi que aconteceu? -Você sabe o que está fazendo? Ela soltou uma enorme gargalhada, se descuidou um pouco da direção e a camionete discretamente fez um pequeno zigue-zague na estrada. Encarou-me por mais de uma vez e parecia fazer questão de entender onde é que eu queria chegar. -Relaxa Heitor. Você está tenso demais. Agora não é hora de se preocupar. Curti o momento e não se estressa antes da hora. -Você tem certeza do que está fazendo? -I heard it through the grapevine, not much longer would you be mine. Lógico Heitor! -Pois não parece! -Você fala por causa da fuga daquele lugarzinho desprezível? -Também... -Ah, tá! Cê deve estar falando do roubo do litro de Jack Daniels! -Quem sabe! -Ah, você deve estar imaginando como eu passei a mão nessa camionete! -Não me leve a mal Ângela. Eu só... -Quer saber onde estamos indo é isso? -É, não seria uma má idéia saber pra onde você está nos levando já que parece que estamos cada vez mais avançando rumo à zona leste da cidade! -Estamos indo ao Cemitério! -Fazer o que uma hora dessas num Cemitério, são quase meia noite Ângela? -Visitar um túmulo! -Cê deve estar louca! Visitar um túmulo! Túmulo de quem, posso saber? -Meu túmulo, porque? Não posso visitar meu próprio monumento funerário?
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Escrito por fernandobluesborghi às 09h52
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Café Van Gogh ( 12 )
O bar em questão era uma espécie de moquifo beira de estrada. Uma choupana decadente repleta de mesas de sinuca, bebida e motoqueiros barrigudos. Ângela tomou a dianteira e foi entrando. Pensei duas vezes antes de fazer o mesmo. Primeiro porque não possuía sequer uma moeda nos bolsos, estava liso, durango kid. Todo o pouco dinheiro que havia me restado estava na minha carteira, em cima do criado mudo no meu abandonado quarto dos Guerreiros da Lucidez. Segundo que em situações feito essa, uma mulher tem muito mais condições de conseguir o que deseja de maneira solitária, do que acompanhada de um desprezível marmanjo em avançado estado de ruína feito eu. Sentei do lado de fora do boteco e me perdi apreciando o céu. E nessa longa e perdida observação das nuvens em inalterável momento constante, me peguei pensando em como a vida é louca. A mulher que a menos de um mês me tirou fora de eixo, transformou meu marasmo diário num turbilhão inconseqüente de atitudes tresloucadas surge do nada ao meu lado e demonstra pelo pouco tempo de convívio entre nós, que a amizade e a afeição que um sente pelo outro é digna de eternos membros de uma confraria de séculos atrás. Pela altura dos risos e dos constantes brindes que rasgavam a noite, calculei que no mínimo Ângela estava armando alguma coisa. E não demorou muito para ela sair numa apressada corrida, me puxar pelo braço e invadir uma camionete no estacionamento. De chave em punho ela demonstrando vasta experiência no assunto, abriu ambas as portas, ligou o motor e em questão de segundos estávamos rasgando o asfalto. Ângela sorria, gritava e me cutucava. -Olha os otários xingando feito bonecas em frente ao bar. Homem é tudo idiota! Não pode ver um rabo de saia que se derrete todo! Havia pelo menos uma meia dúzia de velhos barrigudos acenando e vociferando palavrões no meio da pista, fora um ou outro que tentava em vão alcançar a camionete, que pouco a pouco ia rasgando asfalto em velocidade digna de corrida de Interlagos. -Você acha que eu esqueci de você Heitor? Não esqueci não querido! E sacando um litro de Jack Daniels de dentro da calça me presenteou sem tirar os olhos do asfalto. -Abre esse licor dos deuses pra gente cowboy!
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Escrito por fernandobluesborghi às 14h05
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Café Van Gogh ( 11 )
Ângela ria feito uma adolescente. Divertia-se muito frente à noite escura. O breu da mata do lado de fora da fazenda era intenso e mesmo estando consciente que não tínhamos noção de onde a estrada ia nos levar, Ângela com sua energia intensa e brilho pessoal conseguia nos manter determinados a encontrar uma luz no final daquela mata fechada. E conforme os insetos nos brindavam com suas picadas cada vez mais ardidas, seu humor parecia aumentar gradualmente. -Já foi escoteiro Heitor? -Não. Nunca fui chegado a aventuras no meio do mato! -Pois eu já fui! Abriu a pequena mochila verde limão que carregava nas costas e saltou duas cervejas geladinhas a pronta entrega. -Eis minha boa ação do dia! Ângela não existia. Ela só podia ser uma espécie de projeção de tudo de bom que alguém pode desejar na vida. -Mas não vá pensando que essa cervejinha é de graça não! -Jura? E saltou sob minhas costas, feito uma adolescente mimada. Não por muito tempo é claro. Minha condição física em petição de miséria não suportou seu peso mais de trinta ou quarenta passadas. Seguimos sem destino dentro da noite escura. Mesmo caminhando sem saber direito aonde aquela estrada de terra ia nos levar prosseguíamos pagando para ver as conseqüências que aquela atitude poderia nos causar. Meia dúzia de latinhas depois alcançamos a rodovia. Durante essa caminhada de mais de quarenta minutos acabei contando de maneira natural e imprecisa toda minha pequena e nada peculiar história pessoal, recheada de longos momentos de tédio, bebedeiras infelizes e mesas e mais mesas de enfadonhos escritórios de contabilidade. Ângela se divertia muito ao perceber que nossas histórias eram muito parecidas. -Quem disse mesmo que de perto ninguém é normal? -Parece que estamos com sorte Heitor! Olha lá que maravilha! -Só pode ser miragem! -Bar não é miragem Heitor, é paraíso artificial.
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Escrito por fernandobluesborghi às 12h13
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Café Van Gogh ( 10 )
Eu sequer conseguia pensar direito, muito menos falar alguma coisa. Fiquei estático. Mais parecendo um inerte rascunho mau acabado de alguma coisa. Um sortudo pau de bosta, cujo destino resolveu dar uma colher de chá e brindar nos minutos finais dessa aventura desajustada chamada vida com um quinhão de fortuna. -Ouviu o que eu falei Heitor? Além de decidida e objetiva, Ângela possuía um raciocínio muito rápido. Ela percebeu que titubeei por alguns segundos e sem deixar que seu objetivo fosse alterado me encostou na parede. Literalmente. -Vai me dizer que está com medo? Aquele hálito de menta a poucos centímetros era covardia. Seu corpo todo torneado me pressionando contra a parede, mas parecia uma visão do paraíso. O mundo definitivamente poderia acabar naquele instante que eu me dava por satisfeito. -Onde você está pensando em ir? -Quanta pergunta! Onde? Por que? Pra que? Está parecendo aqueles velhinhos rabugentos que pensam duas, três, dez, vinte vezes antes de sair de casa. Não gosto de gente assim. Achei que você tivesse um espírito mais insubmisso. Perguntas não levam ninguém a lugar nenhum, é com ação que o mundo gira! E foi se afastando da pequena varanda de meu quarto. Seu corpo era simplesmente perfeito. Com sua silhueta de deusa e trejeitos de feiticeira andava por sobre a grama quase que flutuando. Ela mais parecia uma garota inocente do que uma mulher que já provou de todos os prazeres que a vida pode proporcionar e ainda assim sempre querendo mais. Depois de dar uma dúzia de passos, virou-se novamente em minha direção e num aceno hipnótico me convenceu a seguí-la. -Vamos Heitor. Garanto-te que não vai se arrepender! E abençoados pela lua cheia e um céu extremamente estrelado de fim de verão, corremos feito dois adolescente para os rincões da fazenda. Na parte inferior ao pátio próximo do portão de entrada e saída de veículos havia um muro de tijolos à vista de mais ou menos uns quatro metros de altura. Ela tomou a dianteira escalou aquela espécie de muralha e com uma habilidade digna de uma atleta em questão de segundos estava do outro lado. Penei feito um condenado para tentar no mínimo não passar vergonha frente aquela espécie de Tarzan de calcinhas, mas não escapei da tragédia. Foi preciso que Ângela desse meia volta e aos trancos e barrancos me guinchasse feito o mais horrendo e balofo animal em extinção. Caso contrário, não haveria possibilidade alguma de que eu escalasse aquela muralha.
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Escrito por fernandobluesborghi às 09h53
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Café Van Gogh ( 9 )
Aquilo tudo definitivamente não estava acontecendo comigo. Era muita coincidência demais.O mundo dá muitas voltas, a cidade é enorme, o País e o planeta são de dimensões incalculáveis com tantos lugares possíveis para nos esbarrarmos e tinha que ser logo ali, naquela maldita fazenda de recuperação de desprezíveis viciados. Ouvi longas batidas na porta de meu quarto e por mais de uma vez hesitei em atender. Mas quanto mais eu evitava levantar da cama, e encarar a realidade, mais alto era o estrondo do lado de fora. Mesmo estando perplexo com tudo o que estava acontecendo, sem ter a mínima idéia do que dizer, de como me comportar e titubeando cada vez mais conforme um redemoinho de pensamentos ecoavam por minha cabeça. Resolvi abrir aquela maldita porta e pagar pra ver. -Posso falar com você? Era Ângela. Senti-me o pior dos goleiros frente a frente a um terrível e habilidoso batedor de pênalti, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo. Fiquei sem ação. Minha face parecia uma paisagem morta, estava cego. -Claro! Sentou-se na ponta da minha cama, abriu seu encantador sorriso amarelo e desferiu de forma seca e crua a pergunta que eu mais temia. -De onde você me conhece? Achei melhor evitar os rodeios e ir para os finalmente. -Do Café Van Gogh! Mesmo sem me conhecer direito ela me contou toda sua vida. Era do tipo que precisa urgentemente de interlocutor, e que esse permanecesse calado só prestando atenção. E foi o que acabei fazendo. Em quase três longas horas, Ângela me contou que era sua quinta passagem por aquela clínica. E que como das vezes anteriores ela tinha certeza que não ia dar resultado algum. Conforme suas palavras, ela não fazia questão nenhuma de se livrar daquele vício. Gostava de beber, se sentia bem segurando um bom copo de uísque entre os dedos. Estava ali por pura pressão da família. Mais exatamente do marido. Um bem sucedido industrial do ramo dos eletrodomésticos. Eu que nunca tive o hábito de dedicar muito tempo à vida alheia presumi que além de carente, Ângela possuía uma energia interior que não era compreendida pela família. Ela não se encaixava dentro dos planos de ninguém, presumi até que ao tirar a máscara de proteção que ela fazia questão de demonstrar que possuía, existia uma mulher extremamente vulnerável e capciosa. Dessas que estão nessa existência a passeio, que fazem questão de aproveitar o melhor que a vida tem a proporcionar e que sempre que podem fazem questão de deixar bem claro que não se deve gastar boa vela com mau defunto. Uma espécie de sirene apitou. Eram onze horas da noite em ponto. Aquela espécie de toque de recolher é sinal de que o dia havia chegado ao fim. Ao sair de meu quarto Ângela parecia se sentir mais aliviada e eu mais atordoado com aquele redemoinho de acontecimentos. -A gente se vê amanhã Heitor! Fechei a porta e ela sumiu em meio ao gramado da noite escura. Deitei na cama e ainda não acreditando no que estava acontecendo tinha uma única certeza em mente. Eu não conseguiria dormir aquela noite. Meus últimos dias passaram feito flashs instantâneos em minha frente. E não me convencia de maneira nenhuma que aquilo tudo estava acontecendo era comigo mesmo, e não se tratava de sonho, pesadelo ou visão, era a mais pura realidade. Comecei a divagar observando a claridade úmida e desajeitada das formas opacas e sem brilho do teto, até ser interrompido por um estrondo grandioso na porta. Era Ângela, sôfrega e aflita transbordando adrenalina por cada poro de seu corpo a mil por hora. -Vamos dar o fora daqui!
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Escrito por fernandobluesborghi às 09h27
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Café Van Gogh ( 8 )
A clínica para reabilitação ficava não muito afastada da minha casa. Há pouco mais de vinte minutos de carro. Era uma espécie de chácara, onde a menos de cinco anos tive o prazer de passar os piores momentos de minha vida. Nada de significante havia mudado no local, a não ser uma espécie de frase de efeito que foi estrategicamente colocada logo na entrada abaixo do ridículo nome do local: GUERREIROS DA LUCIDEZ, e não era uma citação qualquer, era uma frase do Faulkner “O passado está morto. Na verdade, ele nem passou ainda”. Só não enfiei o dedo na garganta e vomitei, por consideração a minha sobrinha que estava no banco de trás. Logo após conhecer o quarto onde conviveria com meus mais íntimos fantasmas, e me despedir de Lillian e sua filha, fui intimado à primeira sessão. Uma espécie de sessão onde fui apresentando a pelo menos uma dúzia de desgraçados feito eu. O duro era agüentar a apresentação de cada um. Devidamente sentados numa espécie de semi-círculo, cada qual encarando o companheiro cara a cara, foi dada a largada para a mais bizarra sessão depressão que eu já havia participado. O primeiro que vomitou sua vida foi um ex-noveleiro, ex-diretor de pornochanchadas que no auto dos seus 63 anos resolveu se enveredar pelo caminho do álcool. Depois foi a vez de uma figura taciturna e de difícil identificação que em meados da década de 70, abusou tanto do Lsd que acabou internado num hospital psiquiátrico, por mais de sete vezes, diagnosticado como esquizofrênico. Se refugiando na vodka e não se encontrando. Já estava a ponto de me levantar e sair da sala. Mais o pior estava por vir. Um senhor com mais de 90 anos que nunca havia colocado sequer uma gota de álcool em sua boca durante toda a vida, foi colocado à prova. Bastou-lhe uma disfunção erétil numa longa noite de amor, para trocar suas caminhadas pelos parques da cidade por inúmeros e incontroláveis copos e mais copos de vinho importado na sua adega particular. A essa altura me encontrava cabisbaixo, não conseguia nem sequer levantar a cabeça para prestar atenção naquelas estórias cada vez mais idiotas e estúpidas. Peguei-me contando a quantidade de buracos que havia no piso logo abaixo da sola do meu sapato. Até ouvir um depoimento que pela lógica e sensibilidade só poderia ser de uma mulher. -Não estou aqui para me curar. Bebo porque gosto, ao mesmo tempo em que sinto prazer e necessidade de que meu organismo sinta a vida através da bebida. Estou aqui simplesmente para que essa vontade não acabe afetando minha aparência sadia. Sei que internamente estou devastada por uma enfermidade que, por medo, nunca recebeu diagnóstico claro nem tratamento eficaz... Essas palavras fizeram com que aos poucos eu levantasse a cabeça e encarasse sua interlocutora. E para minha total surpresa era Ângela. Ao encará-la de frente, perdi totalmente o controle emocional. Senti o sangue esquentar e uma intensa agonia em forma de vida fez com que eu levantasse da cadeira e num surto louco soltasse um grito ensandecido. Um misto descontrolado de raiva e surpresa. -Você aqui!
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 11h25
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