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Café Van Gogh ( 21 )

Em menos de quarenta minutos, de pouca conversa e muito sacolejo dentro
da caminhonete de Macaco e estávamos entrando em Jacareí.
-Faz tempo que você não vê sua mãe?
-Olha Macaco, pra ser exato com você, já se vão mais de dez anos!
-Muito tempo, né não?
-Passa muito rápido cê não acha?
-Pouco tempo longe de alguém que a gente gosta é muito. Muito tempo longe de
quem à gente detesta é pouco!
-Verdade!
 No curto trajeto de menos de oitenta quilômetros se trocamos uma dúzia de
frases foi muito. Além de possuir um coração imenso e ter o hábito de conversar
muito pouco, o primo do cozinheiro mirim da periferia de São Paulo possuía uma
concentração invejável para com o trânsito, devidamente caótico naquele horário.
Às sete horas da manhã em ponto ele me deixou na minúscula rodoviária de Jacareí.
Se é que posso chamar aquele pequeno espaço físico de rodoviária.
Como agradecimento pelo imenso favor que ele havia me prestado fiz questão
de pagar um pingado com pão e margarina para Macaco, e assim dar fim nas minhas
últimas moedas e definitivamente ficar sem nenhum centavo no bolso.
Passou-me pela cabeça mil e uma alternativas de conseguir dinheiro.
Desde uma mendicante ligação a cobrar para Lílian, Ângela  ou meu Patrão
(e ou ex-Patrão nessa altura do campeonato), solicitando um empréstimo salvador, 
até na possibilidade de andar pelas beiradas obscuras de Jacareí
e vender meu relógio, camisa ou sapatos, que nem eram assim artigos de
primeira categoria, mas que em todo caso poderiam colaborar na possibilidade de
levantar alguns trocados.
Mas sentado em meio ao caos da pequena rodoviária do interior do Vale do Paraíba
e me sentindo ilhado em pensamentos dos mais persuasivos possíveis, resolvi tomar
iniciativa. Informei-me com alguns motoristas de ônibus sobre a distância de Jacareí
até Campos de Jordão e quando me certifiquei que não seriam mais do que míseros
cem quilômetros resolvi colocar minha idéia em prática.
Seguiria a pé até a casa de minha mãe.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 09h45
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Café Van Gogh ( 20 )

Acordei com o sino de uma igreja estralando dentro de meus ouvidos.
Minha cabeça doía, o mundo girava e um gosto acre em minha boca fazia questão
de lembrar-me que eu havia bebido quase todo o meu dinheiro naquela maldita
mesa de restaurante. Havia sobrado menos de vinte reais, valor quase que exato
do aluguel daquele quarto de hotel fuleiro, cheirando a mofo e azedo
onde eu havia dormido. Eram seis da manhã, levantei com um pouco de
dificuldade e fui até a janela onde o subúrbio da cidade ao contrário de mim
ganhava vida aos poucos. Entretive-me com aquele vai e vem frenético de pessoas,
automóveis e de algo que eu sentia que a cada dia que se passava eu possuía
menos: “Vida”. Enquanto me encontrava perdido olhando as ruas e pensando no
nada que minha vida representava perante aquilo tudo seguidas batidas soaram
na porta. Por um instante senti um certo medo de abrir e ver quem poderia ser.
Pensei mil coisas antes de tomar iniciativa de me aproximar da porta e abri-la.
-Bom dia seu Heitor!
Era um moleque, baixinho, cara e sotaque de nordestino, devia ter no máximo uns
treze ou quatorze anos, estampava no rosto um sorriso enorme e uma energia invejável
dignas de sua idade.
-O Macaco falou que tudo bem, o senhor pode ir com ele!
-Quem, falou o que?
-Meu primo o motorista do caminhão de verdura que te falei ontem à noite.
-Ele tá voltando pra casa, e disse que se o senhor quiser ele dá uma carona até
a rodoviária de Jacareí.
-O que eu vou fazer em Jacareí?
-O senhor não falou que precisava visitar sua mãe em Campos do Jordão?
Jacareí onde meu primo vai pegar verdura é na metade do caminho. O senhor mesmo
disse que estava precisando economizar uns trocados, que estava quase duro.
Apesar de que o senhor bebeu um bocado ontem à noite.
-Bebi é?
-Pelo visto nem se lembra que me deve dez reais?
Enquanto aguardava eu lavar o rosto meu pequeno amigo ia aos poucos fazendo com que
eu lembrasse da caixa de cerveja que havia pagado no bar na noite passada,
nos amigos que fiz ao assistir uma partida de futebol qualquer no televisor do
restaurante e na ajuda em busca de um local para dormir que o pequeno cozinheiro
do restaurante havia me dado. Contou-me que simpatizou muito comigo quando eu fiz o
restaurante quase que lotado saudar aquele pequeno cozinheiro de apenas quatorze anos
que cozinhava feito um adulto e que sem dúvida nenhuma era dono de uma das melhores
feijoadas de São Paulo.
Já na boleia da pequena caminhonete de Macaco, um Mineiro de poucas palavras,
me despedi do pequeno cozinheiro que por mais prestativo que tinha sido até ali,
não se fez de rogado ao cobrar-me.
-Não tá esquecendo nada não seu Heitor?
-Ah, sim, claro!
Enfiei a mão no bolso e saquei meu último dinheiro. Dez reais. Dei o dinheiro ao garoto,
que feliz da vida me abraçou.
-Dê lembranças a sua mãe por mim!
-Pode deixar!
Foi só nesse instante que minha ficha caiu e que me toquei que  havia jogado tudo fora,
me isolado de tudo e de todos e que estava precisando da ajuda de uma pessoa que
apesar da distância e do tempo, não ia negar o seu apoio incondicional. Minha mãe.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 17h56
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Café Van Gogh ( 19 )

Menos de vinte minutos depois e numa naturalidade incomum, estávamos do
outro lado da cidade. Havíamos atravessado de ponta a ponta a grande metrópole.
Não que me sentisse mais seguro agora, mas no fundo estava sentindo um
certo conforto de estar longe de casa.
Assim que saímos da estação do metrô Ângela me intimou.
-Aceita um conselho Heitor?
-Depende!
-Se é pra fazer, que faça bem feito!
-Que cê quer dizer com isso?
-Dá um jeito de mudar de cara.
-Que?
-Esqueceu que sua foto está espalhada por todos os jornais do país.
-E daí?
-Rapa esse cabelo, apara essa barba, coloca um óculos escuro nesse rosto...
-Se transforme num foragido da polícia é isso?
-Escuta o que estou dizendo.Se for pra fazer, que faça bem feito.
Não queria dar o braço a torcer, mas o pior é que Ângela estava coberta de razão.
Não podia continuar andando pra cima e pra baixo na maior naturalidade
como se nada tivesse acontecido. Eu era um foragido da polícia agora!
Fomos até a pior barbearia dos confins da zona norte da cidade, onde um tiozinho
italiano lá com seus oitenta anos nas costas, torcedor inveterado do
Palmeiras aos poucos, com uma paciência de Jó foi dando cabo em minha
não muito grande cabeleira. Fiquei sem um fio de cabelo na cabeça e no rosto.
Estava me sentindo o próprio De Niro em Táxi Driver: Careca, louco e perdido.
Quando saímos da barbearia do Italiano Palmeirense já se passavam das seis da
tarde e meu estômago por mais de uma vez deu voz de assalto, urrando em alto
e bom som que estava precisando de comida e rápido se possível.
-Acho bom você comer algo Heitor, antes que seu estômago tenha um treco! 
Paramos no primeiro restaurante que apareceu na reta para de maneira tranqüila
e sossegada comemos em meio a pedreiros, pintores e outros tantos que ralaram
debaixo do sol o dia inteiro e aos iam poucos chegando para comer uma
deliciosa feijoada. Estava faminto e aquela feijoada caiu como uma
luva em meu estômago, devidamente acompanhada de uma dúzia de cervejas geladíssimas,
é claro.
-Você não tem noção de como eu estava precisando disso Ângela!
-Lógico que eu sei! Esqueceu que estamos nessa juntos?
-Por que você está me ajudando?
Ângela congelou. Encarou-me de maneira diferente. Deu um suspiro de decepção e
fez questão de não fingir a desilusão de ter ouvido o que eu disse, mas não respondeu,
continuou em silêncio. Pois eu inutilmente tornei a perguntar.
-Você não devia se arriscar andando comigo pra cima e pra baixo! Você pode ser
acusada de cúmplice sabia?
Ela não resistiu. Levantou-se da mesa, equilibrou-se quando o efeito da cerveja tentou
entortar seu raciocínio e disparou.
-Estou nessa porque gosto de você seu idiota!
-Desculpe, não tive a intenção de te magoar. Escuta, volta aqui! Ângela aonde
você vai!
Eu sempre me achei um idiota, um estúpido, um hipócrita que no fundo só sabia magoar
as pessoas com frases imperfeitas, cheias de ranço, maldade e ironia. Mas desta
vez eu tinha me superado. Havia sacaneado a única pessoa que poderia me ajudar.
E o pior é que não tinha nem humildade suficiente para levantar daquela mesa
 e ir em sua direção e pedir desculpas.
Demorou um pouco, questão de minutos talvez. Mas me toquei da burrice que
havia cometido. Despi-me de todo meu orgulho, soberba, vaidade e brio pessoal
e ganhei a rua indo em direção a Ângela. Como fui hipócrita ao tratar de forma
tão idiota a única pessoa que estava tentando me ajudar.
Apesar de estar com mil motivos para acelerar o passo, Ângela andava de maneira
natural, como se nada tivesse acontecido. Mesmo assim só fui alcançá-la,
uma quadra e meia do restaurante onde estávamos comendo. Aproximei-me por
trás e agarrei-a pelo braço e numa última tentativa resolvi consertar o que havia feito.
-Desculpa Ângela! Não devia ter dito aquilo pra você, me desculpe!
Ela reagiu, tentou se desvencilhar de meus braços e fez questão de demonstrar
que não ia colaborar comigo assim tão facilmente.
-Larga o meu braço!
-Sabe como é, estou com a cabeça quente e acabei falando sem pensar.
-Larga o meu braço, ou vou começar a gritar!
Ela estava decidida a fazê-lo.
-Eu errei Ângela, não devia ter dito aquela maldita frase!
Encarou-me e sequer fez questão de esconder o rosto cheio de fúria.
Seus olhos transbordavam raiva, rancor e indiferença.
-Jura?
-Sou mestre em magoar as pessoas, pode ter certeza que você não foi à primeira!
-E nem vou ser a última pelo visto!
-Me escuta pelo menos?
-Você jogou tudo fora Heitor! Estava a fim de te ajudar, de fazer com que
essa sua fase de pequenos desastres tivessem um fim, mas acho que você faz
questão absoluta de não entender a si próprio. Pois trate de entender aquilo
que você quer antes de pedir ajuda aos outros. Só assim poderá conseguir ajuda.
Quando ela me nocauteou com aquela frase, instintivamente soltei seu braço.
Aos poucos ela foi se distanciando de mim. E quando estava a menos de
cem metros voltou. Vasculhou sua bolsa e em silêncio anotou o número do
seu celular num papel e me entregou.
-Quando você se decidir me liga! Não adianta ficar vivendo a vida inteira
com nostalgia de si mesmo Heitor. Acorda!
E sumiu em meio ao inicio da noite.
Fiquei imóvel no meio da calçada por alguns instantes. Não sabia o que fazer,
o que pensar e como agir. Acabei chegando à conclusão que Ângela só estava ao meu
lado para provar a mim mesmo como eu era inferior a ela. Não havia outra explicação.
Resolvi dar um basta naquele melodrama todo e não pensei duas vezes.
Voltei ao restaurante, sentei-me na mesma mesa e comecei a pedir
uma cerveja atrás da outra.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 10h11
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Café Van Gogh ( 18 )


Uma coisa era eu ter dito que estava consciente em me entregar quando me encontrava
no conforto da minha sala e na presença de apenas duas mulheres.
Outra era o nervosismo e nó que senti por dentro ao ver aquele bando de policiais
me procurando feito um animal. Ângela ao perceber que eu travei, fiquei imóvel feito pedra, não perdeu tempo e tomou a iniciativa.
-Vamos dar o fora daqui enquanto é tempo Heitor!
Não queria de forma alguma concordar com o que tinha ouvido. Mas o pior é que Ângela
estava coberta de razão. No fundo eu não queria mais, nem por decreto encarar aquela
situação.
-Como é que esses fila das puta nos encontraram? Como eles sabiam que o Heitor
estava em casa!
-Seguiram a gente Lílian!
-Mas como Ângela? Nós fomos tão cautelosas, fizemos das tripas coração para não dar
bandeira.
- Não tem outra explicação mulher! Seguiram a gente!
Enquanto as duas de maneira normal e com todo o sangue frio que as mulheres têm,
tranqüilamente tiravam conclusões sobre a cena insana que transcorria a céu aberto
e que aos poucos chamava a atenção de uma verdadeira multidão de curiosos.
Fui me afastando em direção oposta a àquela confusão toda, e já encarando
a realidade de forma crua e sem firulas, resolvi acelerar o passo e tentar
aos poucos manter em pé a única fagulha de vida que me alimentava e fazia
com que alguma coisa ainda tivesse sentido em minha existência: “Minha Liberdade”.
Nunca prezei tanto minha liberdade como naquele instante.
Enquanto divagava sobre meu bem mais valioso e dobrava a esquina me afastando daquele
espetáculo circense, senti uma mão puxar-me pelo ombro direito. Era Ângela.
-Finalmente caiu-lhe a ficha e resolveu dar um jeito na vida?
-Cadê minha irmã!
-Foi buscar a bolsa no teu apartamento!
-Está louca, minha casa deve estar recheada de policiais! Ela vai se ferrar!
-Se ferrar por que? Lílian não deve nada a ninguém. Quem está sendo acusado de
assassinato aqui é você! Sua irmã não tem nada a ver com isso!
Onde é que o senhor pensa que vai?
-Sei lá! Por ai!
-Pro metrô, anda, vai andando, não perde tempo. Não para não!
Andando a passos largos e prestando atenção em tudo que acontecia ao redor
atravessamos a rua e entramos numa estação do metrô a menos de cem metros.
Para minha sorte estava completamente lotada naquele horário.
Milhares de pessoas circulavam de um lado para o outro.
Nunca senti em toda minha vida rodeado de uma quantidade tão grande de estranhos.
Todos os rostos eram iguais ao meu. Tensos, preocupados e perdidos. Rostos que não
tinham cor, desfigurados sem vida. Ao mesmo tempo em que me via refletido neles,
sentia que todos os meus atos estavam sendo observados.
E antes que aquela neurose toda atingisse meu sistema nervoso,
Ângela puxou-me para dentro de um vagão e partimos em direção incerta.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 08h33
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Café Van Gogh ( 17 )

Tentei de todas as formas possíveis explicar para as duas que eu era inocente.
Lílian relutou um pouco a admitir que minha pequena descida até ao inferno
não teria sido completada com aquele monstruoso assassinato.
Mas de forma alguma concordava com a minha idéia de ir até uma delegacia
e tentar explicar o que aconteceu. E o pior é que ambas estavam cobertas de razão.
-Você não tem noção do que está dizendo Heitor! Há uma diferença enorme
em nós duas acreditarmos em tudo que você está dizendo, e a polícia!
-Ângela tem razão Heitor! Nem o melhor advogado do mercado vai te livrar
de passar umas boas noitadas na cadeia.
-Mas Lílian, eu não matei ninguém. Eu não fiz nada!
-Cadê suas provas Heitor? Você não leu o jornal direito não? Desde os garçons
do Café Van Gogh até o guarda do Zoológico prestaram depoimentos dizendo
que você estava andando por aquele trecho da cidade completamente chapado
fora de si e na companhia de um verdadeiro bando de zumbis.
-Merda!
-Sua irmã está coberta de razão Heitor. Suas chances de escapar dessa são remotas.
Todas as probabilidades estão contra você. Tua única alternativa é dar o fora
enquanto é tempo.
Instintivamente e começando a me achar ameaçado, nem sequer reparei que aumentei
o tom de minha voz.
-Legal! Então vou viver o resto da minha vida escondido, correndo pra cima
e pra baixo feito o pior dos asssassinos. Vocês duas perderam a noção.
Isso aqui não é filme, é vida real. Não tem essa de ficar bancando o Easy Rider
e fugindo da realidade. Eu e você Ângela já fizemos isso demais, agora chega.
Vou encarar de frente essa situação, chega de ficar bancado o fugitivo.
Sou um homem não um rato!
Um silêncio sepulcral tomou conta da sala. Ambas permaneceram em silêncio,
cabisbaixas e vez ou outra me encaravam com olhares semi serrados, como que
decretando com absoluta convicção minha derrota.
Até que meu estômago, num rugido alto e desajeitado de fome, resolveu dar
o ar de sua graça, fazendo com que as duas aos poucos deixassem aquele transe
negativo recheado de caras soturnas e carrancudas e caíssem em risadas descontraídas.
Até Lílian, a mais turrona das duas, parecia conformada com minha decisão.
-É, mas antes de se entregar, acho que você precisa dar uma bela duma almoçada meu irmão!
Dentro do elevador, no curto caminho até a portaria do prédio, todo aquele clima
de terror que havia se espalhado pelo apartamento, havia desaparecido como
que por completo. Falávamos de futilidades e riamos feito adolescentes,
fazendo questão de esquecer toda aquela situação.
O carro de Lílian estava estacionado na esquina do prédio, e só ao chegarmos
até ele foi que minha irmã reparou que havia esquecido a bolsa no meu apartamento.
-Putz, que cabeça a minha, esqueci a bolsa no teu apartamento Heitor!
-Deixa lá, depois você pega!
-Mas a chave do carro está dentro dela!
Parecia até combinado. Quando Lílian terminou de completar a frase, um número
grande de viaturas da polícia estacionaram na frente do meu prédio.
A impressão que se dava é que os policiais pareciam estar executando uma
complicadíssima operação de guerra, e aos poucos desciam aos montes e num
balé desconcertado iam entrando apressados no prédio onde por
exatos quinze anos morei.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 08h49
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Café Van Gogh ( 16 )

Já se passavam das quatro e meia da tarde quando fui acordado
de supetão por uma seqüência gigantesca de pancadas na porta e longas
e insistentes dedadas na campainha de meu apartamento.
Havia adormecido em pleno sofá da sala. Do jeito que sai do banheiro
sentei no sofá e apaguei. A seqüência de golpes em minha porta parecia
ser cada vez maior. Poderia jurar que estavam tentando a todo custo
colocar a pobre porta abaixo na base da força. A princípio fiquei apreensivo.
Afinal quem tinha conhecimento da minha presença em meu próprio
apartamento, além de mim?
-Abre essa porta logo Heitor! Nós sabemos que você está ai!
Era a voz de Ângela. Levantei meio sem saber ao certo o que estava fazendo
e quando coloquei minha mão direita na maçaneta foi que refleti de maneira precisa.
-O que você quis dizer com “Nós Sabemos que você está ai!”. Quem está com você?
-Abri logo essa porcaria de porta Heitor!
Era a voz de Lílian, minha irmã. Como é que essas duas poderiam estar juntas?
Abri a porta e feito um tufão, ambas entraram e em meio a uma discussão,
gritaria e falatório digno de uma multidão, me deixaram plantado frente
à porta entreaberta.
-Posso saber de onde vocês duas se conhecem?
-Não quero saber de conversa com você seu tratante do caralho!
-Que é isso Ângela, tá louca?
-O que foi que combinamos ontem à noite antes de você vazar do cemitério?
-Eu sei lá!
-Não falei pra você Lílian! Teu irmão não é confiável!
-Espera ai. Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?
E vocês duas se conhecem de onde? Posso saber ou é segredo?
Minha irmã, por incrível que pareça, a mais serena das duas,
 veio até a porta e abriu o jogo.
-Me ligaram da clínica avisando que vocês dois haviam fugido, e o paradeiro era
o mais óbvio possível, já que Ângela havia cometido essa digamos “peripécia”,
uma dúzia de vezes, e perguntaram se eu não gostaria de acompanhá-los.
-Quer dizer que aquele monte de sirenes e luzes do lado de fora
do cemitério eram....
Ângela, louca da vida levantou do sofá, e sentou-se novamente.
Era visível seu nervosismo.
-Eram ambulâncias! Por que você não apareceu no Van Gogh como havíamos combinado?
-Escuta Ângela. Acho que precisamos colocar um ponto final nessa história.
Melhor parar por aqui.
-O que? Você não sabe o que diz!
-Sei muito bem. Não adianta ficar tapando o sol com a peneira.
O melhor a fazer é....
Lílian, que a essa altura estava sentada ao lado dela, não fazia
questão nenhuma de esconder seu apoio incondicional a Ângela.
-Ela só está querendo te ajudar Heitor!Escute-a, por favor!
-Me ajudar? Sei!
-Ouve o que ela tem a dizer ao menos, meu irmão!
-Não quero ouvir nada. Ou vocês duas saem daqui ou saio eu.
Ângela levantou-se e lentamente veio em minha direção.
-Acho melhor você não colocar seus pés para fora desse apartamento Heitor!
Resolvi encará-la de frente e parti em sua direção.
-Sério? E eu posso saber  por que?
-Se você faz tanta questão!
Ângela jogou-me na cara o jornal diário mais lido do país.
E para minha total surpresa, havia uma enorme foto minha estampada na capa,
logo abaixo de uma manchete em letras grifadas em vermelho: “Polícia Procura
Assassino de Mendiga!”
A essa altura Lillian chorava copiosamente no sofá.
-Meu irmão é um assassino!

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 09h52
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Café Van Gogh ( 15 )

Rodei por toda a madrugada, por mais que andasse, o centro da cidade
parecia cada vez mais longe. A noite era quente, e eu completamente duro,
sem um centavo sequer nos bolsos caminhava feito um desgraçado por
ruas cada vez mais escuras e perigosas. Só quem anda por lugares incomuns
é capaz de ver a vida noturna em sua total complexidade.
O balé misterioso executado por putas, traficantes e outros tipos comuns
ao submundo é simplesmente onipotente, gigantesco e rotatório.
A uma certa altura do campeonato, ao cruzar quase que por completo
uma das piores favelas da cidade e ainda continuar vivo, sem um arranhão sequer,
não resisti e me sentindo o mais sortudo dos mortais ajoelhei-me
ao lado de um bueiro fétido e rezei feito o mais louco dos fiéis da
longa noite do inferno pessoal. Dei graças a todos os santos por ainda estar vivo.
 A adrenalina de caminhar por entre bairros considerados barra pesada
fez com que o efeito do Jack e as cervejinhas fossem aos poucos colocados
para fora em forma de suor
.Quando encontrei um taxista e pedi informação quanto a minha localização
estava completamente ensopado de suor, fedendo a álcool e em vias de desistir
de chegar em casa e determinado a dormir por ali mesmo, num banco de cimento armado
de uma praça pública em meio à luz do sol que raiava no horizonte.
-Você está longe de casa filho, muito longe..
O taxista não fez questão nenhuma de encobertar o quanto eu estava fudido.
Em meio a longas mascadas de uma gosma verde me desanimava a cada frase incompleta,
permeadas de longas pausas e respirações ofegantes.
-Eu acho que a pé, você vai demorar umas quatro a cinco horas, mais ou menos.
A não ser...
-A não ser?
-A não ser que...
Fiquei estático esperando o complemento do raciocínio do taxista que foi em
direção ao meio da rua deserta e parou um caminhão de lixo, e subindo
na boléia do caminhão, cumprimentou o motorista, amigo seu de longa data.
-Fala Valdir!
-Quebra um galho pra mim Rodrigão!
-Fala ai mordomia. Só não me pedi dinheiro!
-Dá uma carona pro meu colega ali.
E assim, na boléia de um caminhão de recolhimento de lixo cruzei a cidade
de ponta a ponta. No meio do caminho em meio ao cheiro azedo de sobras,
detritos e imundícies que só o ser humano é capaz de produzir, tive tempo
e lucidez suficiente para ver meus últimos dias passarem feito um filme
 por minha cabeça. E ao fim me senti indignado comigo mesmo.
Como eu podia estar me dando ao luxo de jogar minha vida pro alto por causa de
uma louca feito Ângela. Eu só podia estar cego. Coloquei-me no meu lugar
e ao reconhecer-me o pior dos piores, o mais derrotado de todos tomei
a decisão de acabar com essa situação de uma vez por todas.
Já era dia quando desci do caminhão a poucos metros de meu apartamento
e acenei em agradecimento ao motorista. Naquele momento, quando entrei
debaixo do chuveiro e senti as primeiras gotas de ducha quente me conduzirem
a vida novamente estava completamente decidido a colocar um ponto final naquela
loucura toda que eu mesmo havia me metido.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 12h55
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