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Café Van Gogh ( 25 )

Mesmo comigo insistindo de todas as maneiras em não aceitar,
Sid saltou cinqüenta reais da carteira e não se deu por satisfeito
enquanto não me viu guardando o dinheiro no bolso.
-Não precisa disso Sid, foi você quem me ajudou. Tá esquecendo?
-Se não fosse você dar uma mão, estava com a carroceria pela metade
de mercadoria. Pega esse dinheiro logo, senão você vai arrumar pra cabeça. Moleque!
Aquela altura do campeonato já devidamente curtido pela cachaça consumida
durante todo o dia, Sid demonstrava ser outra pessoa. Sob o domínio do álcool,
mostrava uma faceta agressiva e ditadora de sua personalidade que mesmo assim
conseguia agregar ao seu redor um círculo cada vez maior de amizade.
Fazia menos de uma hora que estávamos no restaurante do Posto, e nada menos
que quinze caminhoneiros já haviam se juntado a nós. Pouco a pouco duas caixas
de cervejas foram esvaziadas e o tom da conversa de Sid ficava cada vez mais alto,
de um preconceito grotesco  e totalmente desgovernado.
-Mulher gosta mesmo é de apanhar! Esse negócio de tratá-las com carinho,
amor e compaixão é coisa de boiola!
E em meio a uivos, gritos, berros e longas gargalhadas, que com certeza podiam
ser ouvidas a distância. O Clube dos caminhoneiros loucos, como eles mesmos se
auto denominavam aquela altura do campeonato, ia cada vez mais aumentando sob o
olhar atento e desconfiado do dono do local, que ao me ver se afastando da roda
veio em minha direção.
-Esse teu amigo tem dinheiro?
Fiquei calado, como se não tivesse ouvido a interrogação do carrancudo e taciturno
dono do Restaurante.
-Ei! Estou falando com você seu bosta! Não está me ouvindo não?
Dei uma longa golada no meu copo de cerveja, abaixei a cabeça e permaneci calado.
E essa minha atitude enfureceu-o ainda mais. Fazendo o sangue subir-lhe a cabeça
e ao perder completamente a razão me levantar pelo colarinho da camisa.
-Você por um acaso é surdo, seu verme!
Me surpreendi, que mesmo com toda a experiência que seus vastos cabelos brancos e 
suas visíveis e profundas marcas do tempo registradas no  rosto, aquele idiota havia
feito aquilo comigo. Sid e o Clube dos Caminhoneiros Loucos não pensaram duas vezes
ao ver a cena e vieram em peso pra cima daquele pobre coitado. Sid com uma garrafa
em punho, sequer conseguia coordenar seus passos e por muito pouco não caiu em cima
de uma mesa no meio do caminho. E num português totalmente inaudível e descoordenado
intimou-o.
-Acho melhor, você soltar o meu amigo!
O dono do Restaurante ao se sentir pressionado por aquela tropa de caminhoneiros bêbados
não perdeu tempo, tirou um trinta e oito da cintura e enfiou na minha boca.
-Nem mais um passo ou eu estouro os miolos desse desgraçado.

continua...




Escrito por fernandobluesborghi às 12h03
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Café Van Gogh ( 24 )

Quando levantei, já se passavam das seis e meia da manhã.
O pátio do posto aos poucos ia esvaziando, a frota de caminhões
que na noite passada era enorme a essa altura não passava de mais
de uma dúzia de retardatários que aos poucos iam debandando, muitos
deles pilotados por motoristas vazados de sono, já que pela quantidade
de latinhas de cerveja e camisinhas espalhadas pelo chão do posto,
a noite passada havia sido muito movimentada.
Estava completamente recuperado, nada como uma bela noite de descanso
para colocar minha carcaça em dia novamente. Minhas pernas ainda sentiam
a longa caminhada do dia anterior, e aos poucos comecei a sentir algo que
nunca imaginei que sentiria um dia: Câimbras!
Tentei da melhor maneira possível esquecer o cansaço dobrando a rede
que me salvou a pele. Olhei para cima e um sol mais escaldante que o dia anterior
me esperava sorrindo, firme e forte no meio do céu. Só de pensar em
encarar a estrada, já me sentia cansado. Até que do banheiro surgiu o velho
caminhoneiro assobiando e cantando como se aquele fosse o dia mais feliz de sua vida.
-Queria te agradecer pela rede! Muito obrigado. Você quebrou foi uma arvore,
não um galho!
-Você está indo pra onde rapaz?
-Campos de Jordão?
-Tá com muita pressa?
-Não! Por que?
-Não quer retribuir o favor, não?
-Com o maior prazer!
O nome do caminhoneiro era Sid alguma coisa. Um nome complicadíssimo que ele herdou
de uma tradicional família mineira. Seu caminhão estava repleto de produtos de limpeza.
Sabão em pó, alvejante e outros produtos para a higiene doméstica que eu sequer
sabia que existiam. Seu roteiro de entregas se resumia em não muito além do que duas
dúzias de estabelecimentos comerciais divididos entre São José dos Campos e Caçapava.
E assim foi o dia, a base de um sobe e desce infinito na carroceria do incansável
1113 velho de guerra.
Sid além de possuir um jogo de cintura com os clientes e uma paciência de Jó com o
insuportável trânsito do interior Paulista, era chegado numa cachaça.
A termino de cada entrega que faziamos, Sid fazia questão de bebericar um gole num
garrafão de cinco litros de cachaça mineira que ele carregava na carroceria.
Tentei acompanhá-lo, mas depois da oitava entrega juro que senti minhas pernas bambearem
por mais de uma vez. E por pouco não levei um tombo numa escadaria de um supermercado
numa vila afastada de São José dos Campos.
Eram seis horas da tarde em ponto quando Sid estacionou seu velho 1113 num posto
de gasolina na saída de Caçapava e com a carroceria completamente vazia sorriu feliz
como que me dizendo satisfeito por haver completado o serviço.
-Agora vamos festejar, Heitor!

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 20h31
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Café Van Gogh ( 23 )

Já estava convencido de que estava fadado a dormir ao relento no pátio do posto,
quando em menos de duas horas depois de minha expulsão do restaurante o mesmo
motorista que tentou de todas as maneiras manter um diálogo comigo veio
em minha direção.
-Vai passar a noite ai no chão feito um cachorro, meu amigo?
-É a parte que me resta nesse latifúndio!
O velho rei da estrada soltou uma enorme gargalhada. Sua pança gigantesca saltou
para fora da camisa que a muito estava amarrotada e depois de dar uma longa talagada
no que creio eu não seria sua última latinha de cerveja da noite, esticou-me o braço
e colocou-me com um pouco de dificuldade em pé novamente.
-Você tem um senso de humor fantástico rapaz, fazia tempo que eu não ouvia essa frase!
Vem comigo que tem uma rede sobrando no caminhão e dá para você descansar mais à vontade.
-Tem certeza que não está cometendo nenhum tipo de engano?
-Absoluta!
-Se fosse você não saia ajudando a um caminhante qualquer feito eu. Nem ao menos me conhece,
posso ser o pior dos criminosos...
Para minha surpresa, o velho caminhoneiro saltou mais duas latinhas de cerveja dos bolsos,
jogou uma em minha direção e acenando para que eu o acompanha-se em direção a seu caminhão
retrucou-me em alto e bom som.
-Se tem uma espécie de resto humano que eu conheço, são os marginais. Minha profissão me
ensinou a reconhecê-los a pelo menos um quilômetro de distância. E você não é um deles.
Com essa sua cara desgovernada, você aparenta de tudo um pouco rapaz, menos um marginal.
Quando terminei de matar a latinha de cerveja, e que definitivamente me ajeitei na rede
debaixo do caminhão do meu anjo da guarda, o cansaço me tomou por completo de maneira
firme e impiedosa, em questão de minutos ia apagar com certeza. Mas ainda assim com o resto
de energia que me sobrava mantive por alguns instantes uma das pálpebras em alerta para
assistir o que seria o inicio do balé das prostitutas em busca de trabalho em suas visitas
incessantes nas portas de quase todos os caminhões que se encontravam estacionados no pátio
daquele posto. As damas da noite com assim eram chamadas na recepção de seus clientes mais
afoitos, chegavam aos poucos e em questão de tempo seriam maioria naquela longa noite de
um verão escaldante no vale do Paraíba, onde nunca em toda minha vida senti tanta dor
em minhas pernas. Em determinados momentos, durante o transcorrer da madrugada, juro que
pensei que a dor que sentiria ao amputar minhas pernas seria bem menor do que aquela que
estava sentindo. Mas agüentei firme, driblei a dor e a exaustão se encarregou de me fazer
adormecer feito pedra.

continua...

 



Escrito por fernandobluesborghi às 12h22
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Café Van Gogh ( 22 )

E aos poucos tentei colocar em prática meu raciocínio e debaixo de
um sol escaldante comecei a encarar de frente a rodovia.
Concentrado no meu objetivo e de certa maneira fazendo questão
de permanecer cego frente às inúmeras intempéries que certamente iam
surgir aos poucos pelo longo trajeto adiante.Iniciei minha via-crúcis pessoal.
Em meio a fumaça emitida pelos veículos e os efeitos causticantes do calor
terrível de um céu límpido e risonho onde nem ao menos uma nuvem se fazia
presente para aliviar minha pele, eu fazia longas reflexões de como havia
agido de maneira idiota e no quanto estúpido  fui ao projetar a minha carência
afetiva naquela maldita mesa do Café Van Gogh. Ainda assim, dentre os muitos
erros que havia cometido o simples fato de ter conhecido Ângela, e por ela ter
me enfiado numa presepada desse tamanho possuía uma enorme verdade: O sofrimento.
Eu que nunca fui muito dado a tirar resultados de fatos pessoais acabei chegando
à conclusão de que sofremos, e sofremos por não sofrer o suficiente,
pois o sofrimento de que falamos não é nunca o mesmo que sentimos. 
-Água! O que seria de mim, sem um misero copo de água.
Foi à única frase que consegui murmurar ao sentar na beira de um balcão
de um restaurante fuleiro do Posto de Gasolina na entrada de São José dos Campos
às seis e meia da tarde. Eu havia caminhado por dez horas seguidas, juro que no meio
do caminho duvidei da enorme capacidade de resistência de meu organismo. Ao longo dos
mais de quarenta quilômetros que separam Jacareí - São José dos Campos,com passadas
largas por várias vezes sentindo a respiração ofegante consegui fazer apenas uma pausa.
Foi justamente quando meu estômago estava quase desistindo de dar sinais de vida,
que o acaso (sempre ele), me brindou com uma dúzia de bananas podres,que espalhadas pelo
asfalto certamente haviam caído de algum caminhão.
-Tá um bocado queimado de sol hein parceiro?
O caminhoneiro que havia sentado ao meu lado no balcão, por mais de uma vez repetiu
essa mesma frase até que eu conseguisse sair do transe imposto pelo cansaço.
-Tua pele deve estar em brasa, num tá não?
-É acho que me queimei um pouco!
-Vai pra Aparecida? É promessa?
Ainda consegui com o resto de energia que possuía, soltar uma ínfima risada,
tão seca e insípida quanto a intimação que o proprietário do restaurante me faria a seguir.
-Amigo, agora que saciou a sua sede, não leva a mau não, mas faz o favor de dar
licença que o cheiro do teu suor está infectando o ambiente.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 21h01
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