Café Van Gogh ( 30 )
E ganhamos a estrada novamente. Lena era nome ou apelido? Melhor deixar a curiosidade para outra oportunidade. Não havia como negar que ela uma garota muito gente boa, pois eu nunca poderia imaginar que ela fizesse meia volta e retornasse para me dar carona. Enquanto brigava com meus pensamentos cada vez mais difusos, Lena estava com os olhos grudados na rodovia. -Conhece São Luis do Paraitinga, Heitor? -Nunca ouvi falar, onde fica? -A uns cinqüenta quilômetros no máximo! -O que há de tão especial nessa cidade? -Minha irmã mora lá! Bem que o frentista havia comentado a respeito da irmã dela. -Irmã mais nova ou mais velha? -Quantos anos você acha que eu tenho? Nunca gostei dessa conversa de adivinhar idade, se por um lado você joga a idade da pessoa pra baixo, afim de não magoá-la, ela pode pensar que você está tirando sarro. Se você joga a idade lá em cima, ela pode acabar encarando como que sua visão a respeito dela, se trata de um velha. -Por que você pensa tanto, para dar uma simples resposta? Sabia que essas tuas viajadas de pensamento me deixam cabreira? -Trinta anos! Ela deu um longo sorriso de aprovação. -Faço vinte nove daqui dois dias! Senti-me um pouco mais aliviado. -Ainda bem que errei por pouco! Meu estômago (mais uma vez ele), fez questão de colocar um fim naquela conversa fiada, e como que se sentindo incomodado com aquele blá...blá...blá sem fim, deu uma urrada, que fez nós dois sorrimos descontraídos. -É meu velho, parece que teu estômago está querendo sair pra fora da barriga! -Estou morrendo de fome se você quer saber! -Fica frio que em menos de duas horas chegamos na casa da minha irmã, e eu preparo um rango pra gente. Não consigo mais acreditar em ninguém. Nesses últimos dias, conheci pessoas que eu sequer imaginava existirem, personalidades das mais diferentes possíveis e com apenas algo em comum: A loucura diária que mutila e enlouquece quem estiver despreparado. -Você tem certeza que está fazendo a coisa certa? -Por que essa pergunta agora? -Sei lá, derepente sua irmã pode não gostar da minha presença. -Ela não tem que gosta de nada! -Sério? -Sério! -Mas a casa não é dela? Lena fechou o semblante, me encarou de maneira diferente. Uma mistura de raiva e ódio brotou de suas sobrancelhas, seus pêlos eriçaram e ela fez questão de economizar as palavras, ao fulminar-me sem pestanejar. -Heitor. Vou ser sincera. Você fala pouco, mas quando fala também, só sai merda da tua boca. -Não brinca? -E o pior é que eu gosto! E tascou-me um beijo gelado na boca.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 19h51
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Café Van Gogh ( 29 )
Aquela altura, já havíamos deixado Caçapava para trás. Em nenhum momento fiz questão de perguntá-la para onde estávamos indo. Até ela parar num Posto de gasolina bem próximo a entrada de Taubaté. Enquanto ela pagava pelo combustível, fui até um bebedouro e uma deliciosa água gelada desceu goela abaixo refrescando minha carcaça que já dava enormes sinais de cansaço. Enquanto bebia água, observei-a conversando com os frentistas com enorme intimidade. Ela não era uma mulher bonita, mas além de possuir um carisma muito grande, tinha uma bela bunda. Depois de pagar pelo combustível, deu partida no carro e ficou por alguns minutos olhando-se no espelho retrovisor e dando fim em algumas espinhas que insistiam em manchar seu não tão belo rosto, após algumas aceleradas ela desligou o carro, desceu e caminhando determinada veio até a minha direção. -E ai? Coloquei a mão no bolso, tirei a nota de cinqüenta reais que Sid havia me presenteado estiquei-a em sua direção. -Toma, é tua! Aparentemente ela ficou indignada com aquela minha reação. Em silêncio ficou me observando ali feito idiota com a nota em punho. -Pega, te ajuda no combustível! Ela franziu a testa, tirou as mãos da cintura, alcançou a nota, virou as costas e saiu em direção ao carro. Um dos frentistas que havia abastecido o carro dela, encostou ao meu lado e ao observá-la dirigindo-se ao fusca não fez questão de poupar-lhe elogios. -Essa menina tem uma bunda que não é dela! Concordei, afinal ele estava coberto de razão. -É. Ela não é fraca! Para minha surpresa, o frentista seguiu em frente e sua boca aos poucos cuspia fofocas feito uma metralhadora. -Você precisa ver a irmã dela. Aquela sim é uma cavala. Tem o dobro do corpo dessa ai! -Sério? O barulho do motor do fusca aos poucos ia sumindo na noite de Taubaté, e para minha sorte uma carreta encostou numa das bombas e o Nelson Rubens versão frentista saiu do meu lado para atender o motorista. Eu fedia, e muito. A mistura de suor com roupa suja dava numa combinação de podre que aos poucos estava me deixando enjoado. Entrei no banheiro e para minha sorte a ducha era grátis. Foi um dos melhores banhos de toda minha vida, enquanto meu corpo era banhado por aqueles longos jatos frios de água, não conseguia pensar em nada, apenas fazia questão de aproveitar aquela sensação de purificação que só a água é capaz de proporcionar. Depois de longos quinze minutos debaixo daquela maravilha, me senti outra pessoa, e mesmo ao encarar meu rosto barbudo e minha careca vermelha de sol no espelho, encontrei energia para encarar a estrada novamente. Ao sair do banheiro e depois de agradecer a um dos frentistas que me arrumou uma toalha de banho que mais parecia um pano de chão, levei um susto. Fiquei sem palavras quando para minha surpresa a garçonete estava sentada no capô de seu fusca comendo uma maçã. Ao me ver sair do banheiro, fez um sinal com o dedo, me chamando em sua direção. -E ai, vamos nessa? Por um instante fiquei só observando-a mastigar aquela maldita e suculenta maçã em minha frente. Não consegui pensar em nada, simplesmente não consegui compreender o que ela estava fazendo ali, parada em minha frente. Ela desceu do capô, jogou o resto da fruta longe e gesticulando para que eu entrasse no carro se apresentou. -Meu nome é Lena! E o seu? -Heitor! -Vamos nessa, Heitor!
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 21h33
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Café Van Gogh ( 28 )
A porta da cozinha dava de cara com um enorme cafezal que se perdia de vista, os tiros e a pancadaria aumentavam cada vez mais lá dentro, e a única coisa que passou pela minha cabeça naquele instante quando respirei o ar puro do início de noite no Vale do Paraiba foi sair correndo em direção aquele cafezal infinito. E minhas pernas agiram como que por conta própria, quando estava prestes a sumir entre galhos e mais galhos de café ouvi a voz da garçonete. -Ei! Onde você pensa que vai? Virei apenas minha cabeça para trás e lá estava ela, na porta de um fusca azul que estava estacionado no lado oposto do cafezal. Acenando feito louca, ela dava longas aceleradas no automóvel e me chamava. -Vamos logo, não temos a noite inteira! Hesitei por alguns instantes. Lembrei de todas as presepadas que havia me metido até ali, mas acabei chegando à conclusão de que não podia me dar ao luxo de virara as costas para ela, já que minhas opções aquela altura dos acontecimentos não eram lá muito otimistas. E afinal das contas mais fudido do que estava não poderia ficar. Quer dizer, se por um acaso caísse nas mãos da policia poderia me complicar. E muito. -Anda! Vai comigo ou não! Pulei no banco do passageiro e ela ganhou a rodovia em alta velocidade. Quer dizer, a oitenta e poucos quilômetros por hora. Antes de deixar definitivamente o pátio do posto para trás, ainda tive a curiosidade de dar uma última olhada e a situação parecia estar ainda mais confusa, tiros sirenes e gritos ecoavam ao longe. -Merda! Merda! Merda! Ela batia as mãos no volante, olhava para a pista e me encarava com cara desconfiada. -Não tive culpa, foi teu patrão que começou tudo! -Eu sei. Eu vi tudo. Aquele desgraçado não podia morrer agora! -Como? -Sem pagar meu acerto, meus direitos! Minha reação aquela frase foi imediata. Mesmo me sentindo muito pouco à vontade e acuado por tudo que estava acontecendo, soltei uma risada auto relaxante e bizarra. -Isso que eu chamo de sangue frio, o cara está lá estirado no chão, morto e você preocupada com seu acerto trabalhista. -Era meu último dia de serviço. Aquele muquirana estava me enrolando a mais de duas horas. Ele se achava o dono do mundo, estava fazendo o maior cú doce pra me pagar. -Ele não tinha cara de ser mesmo gente boa! -Trabalhei naquela espelunca mais de dois anos, e advinha quanto ia receber de acerto? -Você pediu pra sair, ou ele te despediu? -Eu pedi! -Estava cumprindo aviso prévio ou não? Ela me deu uma encarada de cima embaixo. Como que duvidando das minhas perguntas. -Qual era o valor do salário que você estava registrada? -Vem cá, você por um acaso não é da policia não! Ou é? -Não, muito pelo contrário. Trabalhei durante mais de vinte anos no departamento pessoal de um escritório de contabilidade. -E o que estava fazendo junto com aqueles caminhoneiros idiotas? -História longa, muito longa. -Vai me desculpar, mas você tem cara de tudo, menos de... -Eu sei, eu sei!Mas pode acreditar! -Já estava a ponto de estacionar o carro e te deixar na beira da pista, sabia? -Pois você ia fazer um favor. Se há um lugar onde eu estou começando a me sentir cada vez mais a vontade, é na beira da rodovia. -Sério? -Só me arrependo de não ter descoberto isso antes!
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 09h05
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Café Van Gogh ( 27 )
Arrastei-me como pude até o lado detrás do balcão e me esquivando de todas as formas possíveis daquela pancadaria generalizada fui de encontro à garçonete que havia feito a ligação. Ela tremia feito criança, seus olhos estavam cheios de água e ao me ver aproximando, equipou-se rapidamente de uma faca de cozinha e mesmo estando em completo estado de choque, ainda reuniu força pra me intimar. -Nem mais um passo! -Calma mulher... -Nem mais um passo.Eu juro que te mato! -Você está enganada. Ninguém vai matar ninguém por aqui! E os tiros começaram a ecoar dentro da lanchonete. A pancadaria que já rolava solta entre os caminhoneiros e os policiais, agora era composta de dois aditivos perigosos. Tiros e gás lacrimogêneo. -Há algum tipo de saída aqui pelos fundos? A principio a assustada garçonete, se recusou a responder minha pergunta. Permanecia inerte de faca em punho e boca calada. -Acho melhor você colaborar. A situação está começando a ficar complicada aqui dentro! O gás aos poucos se espalhava e os olhos dela começavam a lacrimejar muito dando mostras de que estavam bem irritados. Ela ainda tentou por mais de uma vez resistir e permanecer impávida e reticente perante aquela situação toda. Mas o ar daquele ambiente estava começando a ficar impossível de ser respirado. Ela puxou-me pela mão e me arrastou para uma porta ao lado da cozinha. Antes de alcançá-la, ainda tive tempo dar uma espiada para trás e ver a tragédia que transcorria. Sid parecia um guerreiro romano, munido de uma mesa de lata como escudo, encarava dois ou três policias que tentavam de várias maneiras espancá-lo com seus cassetetes. Os outros caminhoneiros se defendiam da melhor maneira possível. Há essa altura havia três ou quatro corpos caídos no chão. O dono do Restaurante era um deles. Seu corpo já sem vida ainda era pisoteado sem piedade por dois ou três caminhoneiros ao lado do corpo de um policial que estava com o rosto completamente desfigurado no canto de entrada do Restaurante. Antes de definitivamente virar-me de costas para aquela cena toda ainda tive tempo de presenciar a morte de mais um policial que ao ser atingido na cabeça por uma garrafa de vinho cheia, desequilibrou-se e seu corpo acabou espatifando-se de encontro a uma enorme janela de vidro lateral. Seu corpo totalmente cortado pelos cacos de vidro caiu já sem vida sobre um chafariz em forma de bode que decorava a frente da lanchonete, no contato do corpo com a estátua do animal, o sistema de água foi acionado e enormes jatos sem direção eram lançado para o pátio do posto servindo de boas vindas a chegada de mais quatro viaturas lotadas de policiais. Juro que estava completamente hipnotizado por toda aquela cena de barbárie que se desenrolava bem ali na minha frente, e só sai daquela espécie de transe de violência quando a garçonete voltou, tocou no meu ombro e quase que me intimando sorriu sem querer. -Você vai ficar parado ai assistindo ao espetáculo ou vai vir comigo?
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 20h17
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Café Van Gogh ( 26 )
-Acho melhor você tirar essa porcaria de revolver da boca do meu amigo! O já tenso e determinado, Dono do Restaurante fazia questão de deixar bem claro que não faria nenhum tipo de concessão. -Nem mais um passo! Sem pensar duas vezes engatilhou o revólver. -Eu vou estourar os miolos desse desgraçado. Escuta o que eu estou dizendo! Sid também fez questão de deixar bem claro que não abandonaria aquela brincadeira, assim de mão beijada. -Se insistir com essa palhaçada, vamos dar um fim nessa merda de lanchonete! -Sério? Começa então se for homem! A essa altura do campeonato, Sid estava determinado a tomar sabe Deus que tipo de atitude. Enquanto aquela mini cena de tensão transcorria feito uma pobre produção de filme mexicano, uma das garçonetes silenciosamente usava o telefone, com sangue frio e quase que sussurrando no aparelho, só foi notada segundos antes de colocar o telefone no gancho e concluir a presepada. -Olha lá Sid, a vadia telefonando pra policia! Após um dos caminhoneiros denunciar em alto e bom som a estratégia da garçonete, toda a atenção do restaurante se voltou para a pobre coitada que dava sinais de tensão, acuada por detrás do balcão. Tempo exato para um dos motoristas tomar a iniciativa e sorrateiramente levantar uma mesa de lata e arremessar em direção ao dono do Restaurante, e juro que mesmo com o meu crânio correndo o sério risco de ser espatifado por um tiro a queima roupa, torci para que a mesa acertasse seu alvo. E foi o que acabou acontecendo, numa fração de segundos, abaixei minha cabeça, a quina da mesa acertou-lhe a fonte e num nocaute arremessou-lhe o corpo para trás, automaticamente a arma que estava em sua mão caiu no chão e antes de rolar para o canto da porta de entrada, disparou para o alto a bala que certamente estava engatilhada e tinha um destino certo. Minha cabeça. Tentando colocar o corpo em pé, equilibrar-se e certamente localizar sua arma, o dono do Restaurante foi devidamente recepcionado por aquela tropa de caminhoneiros com sede de sangue. A pancadaria começou a rolar solta, pontapés, tapas e socos. O massacre era brutal e impiedoso. Parecia cena de gangue de rua, o sangue escorria de todas as partes do corpo do pobre e moribundo homem que sem poder se defender apanhava de todos os lados e de todas as maneiras possíveis. Se não fossem as sirenes da policia, com certeza bastariam mais um ou dois minutos para o desgraçado partir dessa para melhor. Duas viaturas policiais estacionaram no pátio do posto e para minha surpresa, foram devidamente recepcionadas de forma não muito amistosa pela Gangue de Caminhoneiros Bêbados. -Vamos encarar esses féledasputas à bala! Gritou um caminhoneiro nanico. -É isso mesmo, num vamos dar moral pra essa cambada de porcos do caralho! Entusiasmou-se o chefe da tropa. Sid. A tensão que corria no ambiente era tamanha, que os caminhoneiros resolveram encarar a policia de igual para igual, e assim que os policiais entraram no restaurante uma verdadeira batalha campal se configurou. Eram exatos quinze caminhoneiros, contra menos de meia dúzia de policiais. O sangue rolou sem dó nem piedade.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 19h30
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