Café Van Gogh ( 45 )
Não deu outra, fomos parar num hotel fuleiro a beira mar. Cada vez mais Lena dava vazão a sua veia tresloucada e irresponsável e ao ficar a par de minha situação caótica e irreversível, começou a demonstrar uma espécie de alivio. Parecia ter tirado um peso enorme das costas e resolveu definitivamente arriscar-se numa espécie de abismo pessoal, ela não conseguia mais ignorar a aventura de se arriscar pelo intrincado e obscuro lado do excesso que todos possuem. Apesar de minha coxa avariada, aparentar ter peso e tamanho de duas, nos viramos bem e em meio a uma série de malabarismos portentosos (que por via das dúvidas numa futura oportunidade eu faria questão de recorrer ao Kama Sutra, para saber de sua existência), terminamos de matar o restante da tarde numa pequena tour sexual entre a cama e o carpete do mais tosco dos hotéis da pequena Ubatuba. O suor misturado ao sexo fez com que nossos corpos permanecessem todo aquele final de tarde absolutamente grudados, e devo admitir que apesar de nunca ter imaginado tal desejo sexual, nunca me senti tão à vontade na vida. -Como eu queria que essa tarde não tivesse fim, nunca Heitor! Lena parecia ter lido meus pensamentos. Eu queria acreditar que ela realmente estava falando a verdade, mas aos poucos percebia que todo aquele imbróglio que eu havia me metido começava a me afetar por dentro, e não era pouco. -Você é uma garota muito legal, sabia! Ela riu, e depois de me beijar se levantou. -Rssssssssss.... -Que foi? -Aposto que você diz isso pra todas! E foi lentamente em direção ao banheiro. Confesso que se tivesse um pouco mais de energia, não resistiria e partiria pra cima dela novamente. Lena desfilava completamente nua pelo pequeno quarto e de maneira natural, ficou parada em pose de capa de revista em frente à porta do banheiro. -Vem ver uma coisa, Heitor! -Vale a pena, ou não? -Se eu falar você não acredita? E riu.Uma mistura louca de riso e choro. -É muita coincidência, não acredito! -Fala logo mulher, o que é! -Vem cá ver isso, larga de ser preguiçoso! Colocou as mãos no rosto e começou a chorar pra valer. -O que está acontecendo Lena? -“Nademos até a Lua. Subamos pela Maré. Penetremos a Noite Onde a cidade dorme a velar-se” -Onde você está lendo isso! -“Moonlight Drive” -Isso é The Doors. Levantei e fui até o banheiro. A letra havia sido escrita com uma espécie de batom avermelhado no espelho do banheiro, e logo abaixo dos versos a assinatura era de Manuela.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 19h54
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Café Van Gogh ( 44 )
O calor era imenso, aos sairmos daquela espécie de purgatório humano em forma de hospital público, os termômetros marcavam quase quarenta graus na sombra, temperatura ideal para um mergulho. Nunca desejei em toda minha vida, dar umas braçadas naquele mar enorme que surgia a minha frente. As praias de Ubatuba estavam desertas, e olha que não eram nem três da tarde. Rodamos pelo centro da cidade até pararmos numa lanchonete a beira mar e nossos estômagos estavam em petição de miséria quando Lena resolveu pagar um almoço. Enquanto ela foi ao banheiro, resolvi pedir uma cerveja por conta, e ao encarar aquela fantástica imensidão de mar a minha frente me senti o mais sortudo dos mortais, pois numa hora daquelas eu poderia das duas uma: Ou estar atrás das grades jogado as traças, ou se a mira de minha companheira fosse um pouco mais apurada teria partido dessa pra pior. A perna havia parado de latejar, apesar de estar sobe o efeito de antibióticos, e alguns medicamentos para dor que poderiam me servir de muleta, desculpa ou algo do tipo, não havia perdido a noção de que não poderia adiar mais o diálogo com Lena, que havia acabado de sentar-se à mesa. -Bebendo cerveja, Heitor? -E daí! -Vai cortar o efeito do antibiótico, não vai não? -Fica fria, que pior que está não fica! Conseguiu falar com a sua irmã? Lena olhou-me de maneira tão seca e ressentida que era impossível esconder a irritação. -O que você acha? -Pelo visto não! -Não se faça de idiota, Heitor! Não era justo ficar enrolando a coitada por mais tempo. Resolvi contar tudo de uma vez. E em meio a um belo almoço regado à carne, legumes e frutos do mar fui contando-lhe aos poucos do meu envolvimento com a morte da mendiga em São Paulo, minha fuga da policia e a maneira de como eles chegaram até Manuela, que a essa altura do campeonato estaria longe dali, com certeza. Lena parecia não acreditar no que ouvia, seus olhos arregalaram quando disse que havia pego carona com o motorista que começou a confusão no restaurante do Posto, que eu sequer o conhecia. -Você é mais louco do que eu imaginava Heitor! -Faço o que posso! -Quer dizer, que você está indo pra casa sua mãe em Campos do Jordão! -Você chegou exatamente onde eu queria! -Onde? Não estou entendendo! -Como é que vai ser daqui pra frente? -Como assim, Heitor? -Nós dois! -Fala logo de uma vez, homem! Pensei um pouco, matei o copo de cerveja e falei a primeira coisa que me veio à mente. -Então Lena.Cada um segue seu caminho, ou... -Ou? Ela estava completamente perdida.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 18h23
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Café Van Gogh ( 43 )
-Você deu muita sorte meu velho. Mais alguns centímetros e essa bala ia te fazer um estrago nessa coxa, que ia dar dó! O médico de plantão sorriu após me costurar com um pouco de pressa. Ele parecia ser gente boa, um garoto novo, cheio de cuidado e educação que com certeza havia saído da faculdade e começava a vida profissional pegando uma bucha daquela a troco de experiência. Fazia um calor desgraçado e o ambulatório daquele maldito hospital público estava lotado. Mesmo assim trocamos uma dúzia de palavras. -Quem é a garota que está com você, sua namorada? Olhei para a cara do médico, balancei a cabeça, sorri e fiquei quieto. Ele percebeu, ficou meio sem jeito e tentou consertar a cagada. -Desculpa ai chefia, é que a guria é muito bonita, sabe como é... Ri e desabei na cama. -Fica tranqüilo Doutor, eu sei que é antiético o que o senhor fez, mas entendo sua situação. Lena é muito bonita realmente, e além do mais é só uma amiga, nada além disso! -Putz, ainda bem! -Desculpe a curiosidade, mas qual a sua idade Doutor? -Vinte e dois! -Tá perdoado. -Comé qui é? -Hormônios em fúria garoto. É só questão de idade, logo passa! Já passei por isso! -Que idade você tem? -Quarenta e alguns! -Puxa... -Não precisa me dizer, eu sei que aparento mais. Lena chegou do nada carregando uma bermuda nas mãos. -Espero que sirva, Heitor! -Que coincidência, Lena. Acabamos de falar sobre você! O rosto do médico ficou vermelho na hora. -Não é verdade Doutor? Meio sem jeito, e tentando disfarçar ele concordou com a cabeça. -É? Eu posso saber o que vocês falavam a meu respeito? Ou é segredo! E jogou a bermuda sobre a maca. -Falávamos a respeito da sua pontaria! O médico respirou aliviado, tirou um peso enorme das costas. Coloquei a bermuda, me apoiei no ombro de Lena e tentei equilibrar. -O Doutor disse que você atira mal pra caramba! -Verdade, Doutor? Ele estava completamente sem jeito, mas não havia alternativa, ele tinha que encará-la. -É, bem....quer dizer... Não era justo colocar o pobre coitado numa situação daquelas, afinal de contas havia salvado minha pele. Resolvi retribuir. -Obrigado pelo curativo Doutor! -Não a de que! Mas não resisti em tirar uma casquinha. -Mas lembre-se, muito cuidado com as mulheres alheias. Ele abaixou a cabeça, Lena que não é besta nem nada, percebeu que era com ela. -Espera ai, o que é que está acontecendo aqui! -Vamos indo que no caminho te conto.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 21h42
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Café Van Gogh ( 42 )
Dito e feito. Ao ver a veraneio surgir na curva, um policial rodoviário se dirigiu até o meio da pista e deu sinal para que Lena encostasse o carro. A merda estava feita, era só o Policial bater os olhos naquele mundaréu de muamba para nos ferrar. Não havia outra opção, a rodovia estava forrada de Policias Rodoviários, eram mais de cinqüenta,uma espécie de mega operação estava acontecendo ali. Do nada uma quantidade enorme de suor molhou minha testa, eu podia sentir as pulsações de meu coração batendo forte, minha coxa doía mais do que nunca e já estava começando a me ver confinado numa penitenciaria pro resto da vida. Era o fim da jornada com certeza. Apesar daquela situação complicadíssima, Lena não demonstrava nenhuma espécie de nervosismo, naturalmente diminuiu a velocidade e aos poucos foi encostando, e o que é pior com um enorme sorriso no rosto. -Normal Heitor, ajeita a perna, finge que não está rolando nada, que rapidinho a gente sai dessa. -Duvido! Estamos ferrados, isso sim! -Calma rapaz, você não me conhece! O policial veio em direção à janela dela, e para minha surpresa chamou-a pelo nome. -E ai Leninha, beleza? -Melhorou agora, carioca! Ele me encarou, sorriu e continuaram a conversa. -Parece que você está acompanhada hoje, é? -Estou dando uma carona pra um amigo, sabe como é, ele machucou a perna, estou levando pra Ubatuba, fazer um curativo. -Nossa, mas parece que você está com bastante mercadoria hoje, né não? Havia demorado muito para o maldito carioca, reparar quantidade enorme de mercadoria, estava até estranhando. -Tem alguma coisa ai para mim ai, Leninha! -Lógico carioca! Você acha que íamos esquecer de você, nunca! Alcança um envelope no porta luvas pra mim,Heitor! Abri o porta luvas, e em meio a uma monte de badulaques femininos, encontrei um envelope marrom, razoavelmente grande,e pesado. -Você vai gostar carioca, pode ter certeza! Tem três Dvd’s do Woody Allen, que eu sei que você gosta e um do Ed Motta, além de quinhentinho, é claro! Os olhos do policial só faltaram saltar para fora, ficou muito animado ao pegar o pacote nas mãos. -Só não te dou um beijo na boca Leninha, porque meu superior está de olho. Pô muito obrigado gata! -Que é isso carioca, a gente tem que ajudar quem ajuda a gente não é mesmo. -Segue em frente minha gata! E me encarou desconfiado. -Toma cuidado com essa perna ai, rapaz! E Lena devagar e sempre, foi saindo do meio daquela muvuca de policias e aos poucos voltou a colocar o pé no acelerador com vontade. -E ai Heitor, como está a coxa? -Depois dessa, nem dor estou sentindo mais. Ela sorriu. -Por que? -Você ainda pergunta! -Larga de ser bobo... -Quando é que eu ia imaginar ver um Policial Rodoviário fã de Woody Allen e Ed Motta. -Normal, ué! -A gente morre e não vê tudo.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 21h10
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