Café Van Gogh ( 48 )
Paramos num dos vários bares do centro da cidade, e enquanto Lena sem sucesso insistia em ligar para sua irmã, fui derrubando algumas cervejas. O movimento era grande, um vai e vem de turistas deixava o ambiente mais com a cara de uma Babel desgovernada do que qualquer outra coisa. A mesa onde estávamos sentados ficava do lado de fora, o número de mesas que ficavam ao ar livre era praticamente o dobro das que ficavam dentro do lugar, e da posição em que eu estava sentado dava para ver os relâmpagos de uma tempestade que surgiu ao longe. Lena impaciente em meio a tantas idas e vindas a um orelhão mais próximo dava visíveis sinais de cansaço, tristeza e uma agonia de dar pena. Quando pela milésima vez ela sentou-se ao meu lado, e já não sabendo ao certo qual era o seu copo, matou o meu que estava cheio até a boca, resolvi sem muito sucesso puxar uma conversa qualquer na tentativa de dissipar aquele clima não muito agradável. -Já te falei sobre o meu pai, Lena? Curta e grossa, e nem fez questão de olhar na minha cara. -Não! E não me interessa também! Mesmo assim insisti. Era melhor ouvi-la, mesmo que daquela forma esnobe e carrancuda do que ficar apreciando seu desfalecimento a minha frente. -Reza a lenda que quando ele era adolescente, isso lá nos anos cinqüenta, o velho usava botas de motociclista, blusões de couro, fumava cigarrilhas importadas, bebia garrafas do pior vinho no gargalo... -A, é? -Embora isso na época não estivesse de forma alguma na moda. Sua cara de desprezo perante minha conversa fiada era digna de ser registrada em uma foto, dessas que estampam revistas semanais de fofoca. Mesmo assim, insisti. Derrubei mais uma garrafa de cerveja, enchi meu copo, e não me dei por vencido. -Minha irmã ficou com uma das primeiras fotos que ele e minha mãe tiraram juntos. Os dois ainda no começo do namorao, sentados numa Harley Davidson, em frente às Cataratas, em Foz do Iguaçu, A pessoa que tirou o retrato, não era lá nenhum um expert no assunto, tanto que os dois ficaram quase que completamente desfocados. -Jura? -O mais legal desse retrato, é uma frase que meu pai escreveu a lápis, em seu verso.... Finalmente consegui despertá-la para algo. -O que ele escreveu? -“Não sei se sou feliz agora. Mas sou muito menos curioso do que era antes”. Lena levantou-se decidida. E junto aos primeiro pingos de chuva começou a bater em retirada. -Vamos dar o fora daqui que esse papo está me dando sono. Vamos procurar um lugar pra dormir. Rodamos a cidade por mais de três vezes. A chuva aumentava consideravelmente, uma tempestade firme com fortes rajadas de ventos de botar medo aumentava sensivelmente. Cada Hotel que parávamos para procurar pouso, só aumentava nossa decepção. Todos estavam completamente lotados, nem a mais singela Pousada possuía um quartinho para nós. Estava acontecendo um evento literário na cidade, e todo e qualquer quarto vazio havia se transformado em abrigo para escritores, futuros escritores e toda a corja que sobrevive no mundo literário. A chuva aquela altura era tão forte que era impossível transitar pelas alagadas ruas da pequena Paraty. Agora um simples espirro era motivo para a Lena descarregar todo seu nervosismo, dentro da veraneio abafada. -Merda! Já não bastasse essa porra dessa feira de livros, vem essa tempestade pra fuder tudo de vez. Resolvi ficar quieto. Ela estava completamente fora de si, e a cerveja que bebemos estava fazendo efeito, deixando com os nervos a flor da pele. -Culpa sua Heitor! Está vendo que idéia genial a sua de vir para nesse lugar amaldiçoado. O sangue subiu à cabeça na hora. Tive vontade de mandá-la tomar no cú, mais de uma vez, só não o fiz, porque não havia como sair de dentro daquele carro com o dilúvio que caia lá fora. -Agora fica ai, caladão! Só olhando a chuva cair. Nós estamos num beco sem saída, Heitor! E é tudo culpa sua. Aquelas palavras entraram em minha cabeça feito um tufão. Olhei bem para a cara dela, e decidi de uma vez por todas o que fazer. Não ia ficar mais agüentando aquele tipo de ofensa esfarrapada vinda de uma medrosa inconseqüente. Já havia suportado demais aquilo tudo, só esperaria o momento exato, para fazer o que deveria ter feito há muito tempo atrás.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 17h53
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Café Van Gogh ( 47 )
O sol sumia no horizonte e a noite chegava devagar. A face das àrvores a beira da estrada era de puro terror, troncos e arbustos centenários aos poucos iam tomando conta do visual ao nosso redor. A mata cada vez mais fechada e suas milhares de curvas incertas que separam Ubatuba de Paraty poderiam com certeza servir de cenário para um filme do mestre Zé do Caixão. Numa das poucas placas de sinalização que ainda teimava em continuar em pé, completamente esfarrapada e furada de balas na beira do asfalto nos avisava que estávamos avançando em meio ao Parque Nacional da Serra da Bocaína. Lena a essa altura estava com um semblante um pouco mais tranqüilo, apesar de seus olhos vermelhos a acusarem de um longo choro copioso e incerto. Me senti de certa forma mais à vontade aquela altura. Pra ser bem sincero estava me sentindo uma espécie de cúmplice apaixonado. Totalmente desfigurado de preconceitos e cada vez mais à deriva. Fazia questão de seguir a risca a teoria do não planejar, não prever nada do que vai fazer. Minha vida se resumia a desafiar o oculto, e sobreviver a cada dia, e a cada noite era algo que estava se tornando extremamente perigoso. E por mais que eu negasse, o respeito mútuo que estabelecemos se completava numa fórmula improvável de mistura de talentos. Lena com sua lucidez envolvente e eu com um pessimismo cada vez mais àcido. -E a coxa Heitor, melhorou? -Sabe que até parou de formigar, acho que não vou precisar mais amputá-la! Lena sorriu. Senti-me um pouco mais à vontade, e sendo assim, resolvi tirar leite de pedra. -Conhece Paraty? -Eu e Manuela viemos ano passado entregar alguns Dvd’s por aqui! -Isso quer dizer que se você quiser pode terminar de esvaziar o carro por aqui mesmo? -Engano seu! -Como? -Tomamos um pau de uns gringos picaretas que perdemos até o rumo de casa! -Briga, confusão? Lena riu novamente, aos poucos seu rosto voltava ter o brilho e a alegria de outrora. -Cheques sem fundo Heitor! Os caras nos enfiaram mais de trinta mil reais em cheques roubados e por pouco, muito pouco não quebramos! Eu não conhecia Paraty, era minha primeira vez. Não sei se estava impressionado com a cidade realmente, ou aquela impressão era fruto de uma visão bucólica do início da noite, mas que a cidade era muito bonita, não tinha como negar. Os barcos atracados na beira da marinha, as ruas escuras de paralelepípedos grossos e centenários, a arquitetura de época dos casarios e os vários botecos completamente lotados tanto do lado de dentro como do lado de fora, pareciam fazer questão de demonstrar que Paraty era um pequeno pedaço do Paraíso em meio ao litoral. Estava tão abismado com aquela maravilha toda que cheguei a imaginar que aquela cidade carioca um dia fora cenário da Ilha da Fantasia do velho e pequeno Tatoo. Ao descer da veraneio e receber na cara um tênue e frio vento de chuva ao lado da igreja, acreditei de forma mais determinada e consistente na existência de um poder que nos ultrapassa, mas que não consigo defini-lo. No entanto se existe um Deus, como pode ele permitir tantas injustiças e tantas desgraças em meio a uma maravilha de cidade feito aquela.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 18h32
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Café Van Gogh ( 46 )
-Você não está querendo insinuar que essa Manuela, em questão é a sua irmã! Lena se vestiu rapidamente e saiu correndo do pequeno quarto, completamente surda e fora de si. -Aonde você vai Lena, espera um pouco! E mais uma vez o Destino. Sempre ele. Ora um aliado, ora um perigoso inimigo, resolveu dar o ar de sua graça novamente. Digo destino, porque me recuso a acreditar em coincidências. Se há algo que não me entra na cabeça é essa conversa de simultaneidade de fatos. Desde criança que não consigo digerir direito esse papo furado de sorte, azar, coincidência e acaso. Só acredito em destino, mas nada. Alguns minutos depois, desci em direção a portaria e lá estava Lena conversando com o proprietário do pequeno Hotel, quando cheguei , a conversa entre os dois já estava bem adiantada. -O senhor tem certeza do que está falando? -Olha minha filha, se não foi você, era sua xerox. Só pode!Vocês são muito parecidas. Manuela havia passado pelo pequeno Hotel no início daquela tarde. Permaneceu menos de duas horas no quarto onde Lena e eu nos hospedamos, e aquela maldita letra no vidro do banheiro mais a identificação confusa do apavorado Tiozinho dono do lugar, eram a prova cabal. Lena tentava de todas as maneiras manter a pose, mas era impossível. Aquela altura do campeonato ela estava completamente desnorteada, confusa. Suas incertezas a respeito da minha pessoa eram ainda maiores. Era visível seu abatimento. Ao perceber que a pequena Lena estava nocauteada em pé, resolvi tomar a frente da situação. Arrastei-a até o lado de fora do Hotel, sentamos na beira da calçada e ela completamente atônita, fora de prumo precisava de minha ajuda. -Onde será que foi parar sua irmã? -Boa pergunta, Heitor. Boa pergunta. -Por que você não liga pra ela? -Acha que eu já não tentei! -E ai? -Só dá caixa postal! -Tô com uma má impressão! -Sério! -Alguma coisa está me dizendo que deveríamos dar o fora desse lugar o quanto antes. -Antes da polícia, você quer dizer? -Você tem dúvida disso! Lena levantou-se de supetão e foi em direção ao quarto. Ajeitamos nossas coisas (que não eram muitas), rapidamente e em menos de cinco minutos estávamos dentro da veraneio velha de guerra. Lena não conseguia disfarçar o nervosismo, estava completamente confusa. Seus olhos confessavam sem medo aquilo que seu coração sentia. Existia entre ela e o passado uma gigantesca névoa espessa, cheia de lembranças difusas que por mais que Lena tentasse não lhe saiam da cabeça. -Pra onde a gente vai? -Não sei Heitor, não sei. -Aceita uma sugestão. Ela abaixou a cabeça, encostou-a levemente no volante e resmungou soluçando baixinho. -O que você sugere? -Segue pra Paraty!
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 19h18
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