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Café Van Gogh ( 54 )

Antes que o último tripulante daquela nau ululante subisse a bordo
e tivesse início o cortejo do acaso, me deu um nó na garganta fazendo
com que me aproximasse do comandante.
-Eu vou descer!
Ele ria, fazendo questão de não acreditar no que ouvia.
-O que você disse irmão?
-Vou descer, não quero ir até a ilha!
Abraçou-me e gargalhando aos céus, alertou em tom carregado de ironia
a tripulação de minha desistência.
-Irmãos! Irmãos...um segundo de sua atenção!
Toda tripulação se virou para nós.
-Temos um desertor entre nós!
O que se ouvia, era um amontoado de resmungos indecifráveis, e ele
continuava, mesmo assim.
-Esse pobre homem não está preparado para a verdadeira redenção que
só uma vida paralela é capaz de oferecer. Ele está visivelmente atordoado
diante da quase infinidade de perspectivas que a vida pós-moderna lhe oferece!
Quanta hipocrisia.Era demais, estava começando a ficar irritado.
-Nós estamos em um diferente estado de percepção, muito além do que
essa pobre criatura pode imaginar....
Era muita asneira para minha cabeça.
-Mas não há de ser nada, uma simples desistência feito essa, só nos
fortalece, faz parte da natureza humana ter medo da novidade, do novo,
daquilo que ele não conhece, não o culpo de maneira alguma, afinal você
faz parte da sociedade de consumo rápido, dessas que também admiram novidades,
mas essa novidade não pode ser assim tão nova, pois pode causar repulsa
a quem está tão condicionado a ter sempre mais do mesmo.
Desvencilhei-me daquele idiota demagogo que ao perceber que seu discurso
ufanista estava agradando, fazia questão de continuar.
-Um dia esse coitado irá compreender que sua pobre e insignificante existência
pode se transformar numa vida mais completa feito uma mistura tão improvável
quanto um safári com fábulas celtas.
Aquela havia sido a gota d’água. O bando de idiotas aplaudiam efusivamente
aquele amontoado de baboseira, enquanto a tempestade aumentava ainda mais,
e dessa vez com uma dose bem maior de ventos, tão ou mais fortes do que os
outros que haviam atingido a cidade. Ficar de pé naquele lugar começava a
se tornar uma missão completamente impossível. Meio atabalhoado e tentando
me equilibrar, fui chegando aos trancos até o local onde uma pequena escada
me levaria à terra firme. Antes de iniciar a descida, Miguel ainda veio ao
meu encontro.
-Tem certeza do que está fazendo, Heitor!
-Acho que sim. Não fico nesse barco nem mais um minuto!
-Aonde você vai?
-Não faço a mínima idéia.
Cuidadosamente ele ainda fez questão de ajudar-me a descer.
-Tem certeza que vai seguir em frente com essa loucura toda Miguel?
-Não tenho muitas opções! Só tenho uma vida, tenho que aproveitá-la ao máximo!
E acenou-me antes do barco sumir dentro daquele temporal todo. Era impossível
enxergar um palmo à frente. O clima estava horrível, o zumbido do vento, a chuva
forte mais os trovões e os relâmpagos insistentes eram uma visão infernal
de fim de mundo.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 20h01
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Café Van Gogh ( 53 )

Não havia outra opção, por mais que não conhecesse Miguel,
não era justo ficar enrolando uma pessoa, que mesmo 
indiretamente, estava me ajudando. Tinha que contar. Nem que
fosse uma pequena parte daquela história tão ou mais enrolada
do que minha vida, naquele momento.E assim o fiz, torcendo para
que ele acreditasse, naquilo tudo.
Contei-lhe apenas do surto de Lena para frente. Por se tratar
de uma improvável atitude aquela que ela havia tomado, ao tentar
me acretar com o tiro que resvalou em minha coxa, Miguel, ficou meio reservado,
se poupando de comentários e com uma cara que não negava
o descrédito frente àquela confusão louca que eu havia me metido.
Sorte que a essa altura havíamos chegado à beira da marinha onde
íamos subir em uma embarcação rumo a ilha. A chuva não esmorecia
de forma alguma, muito pelo contrário, aumentava pouco a pouco,
deixando toda a água da Bacia da Ilha Grande visivelmente agitada.
O proprietário daquela espécie de escuna em tamanho menor, recepcionava
todos calorosamente na subida ao barco e fazia questão de gritar
aos céus completamente alucinado em pose digna de cantor de rock.
-Que chova, cada vez mais. Que os deuses das águas nos abençoem,
pois nada há de deter nossa ânsia de novidades. As mulheres e
o álcool nos esperam. Somos seres iluminados pelos caminhos da
sabedoria que alimentam a sociedade dos escritores de Paraty.
Ele estava alucinado, sua recepção acalorada fazia
com que todos ao entrarem no barco, se sentissem tão ou mais
desvairados que ele.
Ao subir na embarcação, me senti mais desconfortável quanto antes.
Era uma espécie de baile de carnaval, regado a literatura, chuva,
gritos, e enjôo imediato. O barco balançava demais, mesmo ainda
estando atracado, sem sequer se mover, balançava de um lado para
o outro. A água não perdoava, vinha com toda velocidade. As outras
embarcações que estavam ancoradas ao lado, também sofriam com
a tempestade. Uma delas, de tamanho um pouco menor, e aparentemente
mais simples, estava começando a afundar, devido a enorme quantidade
de água que havia tomado conta de quase toda sua superfície.
Senti um frio na barriga, uma vontade insistente de vomitar,
que estava começando a me deixar preocupado. Só não sabia se
esse mau estar era fruto do descontrole do barco que hora pendia
para um lado, hora para o outro, ou se era medo de que algo pudesse
acontecer em meio ao mar aberto. Olhei ao longe, e o mar revolto
de águas agitadas e perigosas iluminado pelos relâmpagos, me parecia
não transmitir confiança. Miguel parecia não ligar para aquele
pesadelo todo, estava completamente à vontade com os escritores,
que pareciam nem ligar para o que acontecia ao redor.Miguel estava 
tão a  vontade que só ao me servir uma latinha de cerveja, percebeu que
alguma coisa estava fora da ordem comigo.
-Tua coxa tá doendo muito, Heitor?
-Não Miguel, tua gravata estancou o sangue, melhorou bastante.
-Ué, o que aconteceu então?
-Não aconteceu nada!
-E essa cara, se não é de dor, é do que então?
Olhei ao redor, tentei o máximo que pude, mas não consegui disfarçar.
-Medo, você acredita nisso?
-Não vai me dizer que você está com medo, só porque as águas
estão agitadas!
-Acho que sim. Não estou muito confiante que chegaremos com vida
até essa ilha!
Miguel deu uma longa talagada na sua latinha de cerveja, e
desfazendo sua aparente cara de tranqüilo confessou.
-O pior é que estou com a mesma impressão!

continua...

 



Escrito por fernandobluesborghi às 17h36
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Café Van Gogh ( 52 )

No meio do trajeto em direção ao barco que nos levaria para a tão
falada ilha da fantasia (como era conhecida por todos), tentei como
pude conversar com Miguel. Apesar da chuva nos atrapalhar um pouco,
percebi que ele se sentia totalmente a vontade ao falar sobre
sua vida comigo, tanto que o fazia sem muitos rodeios. E me veio
mais que imediatamente a mente a imagem de Lena.  Quando ele falou
a respeito de suas encrencas com a família e da faculdade inacabada
de direito, fazendo com que eu automaticamente refletisse mais de uma
vez a respeito de tudo que estava ouvindo. Afinal de contas, Miguel poderia
ser uma pessoa tão ou mais bacana do que Lena, mas nada me tirava da
cabeça, que todos possuem uma segunda vida, uma verdade escondida,
uma sobrevida tão ou mais conturbada que aquela que aparentemente
é considerada a real. Basta me recordar de como me meti nessa roda viva,
para perceber que todo cuidado é pouco. Nada é o que parece, tudo
é muito relativo, não existe outra explicação. A única diferença
entre Lena, a eterna garçonete de Cruzeiro e Miguel, foi que tive a
sorte de conhecê-lo em uma situação um pouco mais tranqüila, sossegada,
mas que aos poucos estava se tornando outra longa jornada sem destino,
rumo ao improvável e o que é pior, totalmente encharcado e completamente
intranqüilo.
-Desculpa a curiosidade, mas eu poderia fazer uma pergunta, bem
pessoal Heitor?
-Claro Miguel, manda ver!
-É impressão minha, ou você é manco?
E eu que achava que estava conseguindo andar de maneira normal.
Estava me esforçando ao máximo para não dar bandeira, a respeito
da coxa baleada, fui pego de surpresa. Não tive outra opção, a não ser
entrar no jogo.
-É. Pior que sou, por que?
-Perdão, não tive a intenção de magoá-lo, sabe como é, sou Geminiano,
bicho curioso, não é, está no sangue, desculpa ai!
Nunca fui muito bom pra enganar os outros, isso desde os tempos do colégio,
nunca me dei muito bem na arte do engodo, da trapaça, da sacanagem,
mas me esforcei um pouco e tentei mentir da melhor maneira possível.
Afinal de contas não ia abrir o jogo que havia levado uma bala na perna,
para um desconhecido.
-É Miguel, isso é resultado de uma queda de um carro, ainda na minha
adolescência!
-Queda de um carro?
Bendita curiosidade aquela, estava me colocando contra a parede, sem querer.
Solucei um pouco, mas prossegui.
-É! Sabe como é, vinha de uma festa da faculdade, esqueci de travar a porta,
colocar o cinto de segurança, e numa curva a maldita abriu-se, e cai feito
peso morto no asfalto e batendo o joelho.
-Moeu o coitado!
-Tive até que colocar platina!
-Faz muito tempo então?
-Nem me lembro direito quanto!
-Engraçado?
-O que é engraçado, Miguel! O acidente, cê fala?
-Não é que parece que tua perna está sangrando!
E pior é que estava, uma enorme mancha de sangue estava escorrendo da coxa,
em direção ao joelho.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 20h23
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Café Van Gogh ( 51 )

Aos poucos aquela turba de homens tão conhecidos quer como escritores,
quer como bêbados, avançava mediante a chuva. Até o proprietário do bar
resolveu acompanhar aquela espécie de cortejo etílico pelas ruas da
alagada Paraty. A cena chegava até ser bonita de se ver. Um bando de
marmanjos tomando conta das ruas, debaixo de uma tempestade que para
eles parecia não existir. A chuva não dava sinais de trégua, muito
pelo contrário mantinha-se firme e forte, numa pegada continua de
muita água, trovões e relâmpagos. Estava me sentindo cada vez mais
numa sinuca de bico, não tinha muitas opções. Ou procurava outro lugar
para me esconder daquele dilúvio ou seguia aquela multidão rumo a
sabe-se lá onde. Fiquei parado em frente ao bar, enquanto eles se
afastavam a passos largos, não cheguei a contar, mas com certeza passavam
de vinte. Já estava prestes a dar as costas e seguir outro caminho
quando ouvi a voz do garçom que do meio da turma gritou.
-Ei chegado! Não vai vir conosco?
Aquele frase do garçom fez com que todos parassem no meio da rua,
e como loucos fizessem o mesmo.
-O que você está esperando, vamos conosco!
-Vem pra chuva rapaz!
-Você não sabe o que te espera! Pode ter certeza que não vai se arrepender!
Enormes risadas ecoavam pela noite solitária. O garçom era mais
insistente que eu imaginava.
-Vamos com a gente, anda!
As palavras tomaram de assalto minha boca, falei sem pensar.
-Acho que não, tô meio cansado!
Ele resolveu então vir em minha direção. Correu alguns metros e
completamente ensopado, bufava quase sem ar.
-Não faz isso comigo não. Você parece ser o único mais ou menos normal
no meio desses malucos, não me deixa na mão, vamos nessa!
-Mas se esses caras são tão malucos como você está dizendo, o que você
vai fazer lá junto deles.
-Curiosidade, sabe como é. Já ouvi falar tanto da ilha desse cara,
das festas de arromba que acontecem por lá, que tô morrendo de
vontade de conhecer. Cada um fala um troço desse lugar, desde que
começou essa feira a única coisa que se fala na cidade é da quantidade
de mulheres que circula a disposição de qualquer um por lá. Não posso
deixar escapar essa oportunidade. E de hoje não passa!
A cara do garçom me olhando, quase que pedindo, por favor, era uma
mistura irreal de amargura, que ninguém sabe de onde vem, e redenção,
que só dependia de um simples aceno positivo de minha parte.
-Como é seu nome?
-Miguel! E o seu?
-Heitor!
Um trovão gigantesco pipocou no horizonte fazendo com que a chuva
imediatamente aumentasse ainda mais, e logo eu que sempre gostei
dessas chuvas de verão, que caem rápidas sobre a cidade, excitando
o asfalto e levantando um cheiro antigo tão familiar aos sentidos,
senti um frio na barriga ao deixar escapar pela boca um...
-Vamos nessa então!
Tão ou mais falso que aquele coro desordenado de vozes que preenchia
a noite de chuva abundante. As vezes dar corpo a alma pode ser um
exercício muito perigoso.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 10h23
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Café Van Gogh ( 50 )

E a chuva aumentou ainda mais, o homem lá de cima parece que havia
decidido abrir as torneiras de uma vez. Se a água continuasse a cair
daquela maneira, em poucas horas a pequena Paraty seria alagada, com
certeza.Não tive outra opção, a não ser me ajeitar num banco à beira
do balcão, pedir uma cerveja com o resto de trocados que possuía no
bolso e com muita calma esperar. Apesar daquela cerveja estupidamente
gelada descer redondo e aliviar toda e qualquer pretensão de desespero
que por via das dúvidas ainda podia restar, era impossível não ouvir
a conversa repetitiva e enojada que vinha de todas as mesas.
-“Temos que ter ousadia artística!”
-“Mas não só ousadia, acho que o fundamental é termos consciência que
é necessário uma recusa a modernidade misturada a um exílio voluntário!”
-“Me desculpe, mas eu encaro o ato de escrever com um destino, uma missão
de vitalidade intelectual....”
Era muito para minha cabeça.E o pior é que parecia não haver fim.
-“Eu sou mais dado a um estilo novelão sentimental, com direito a lances
de amor à primeira vista e suicídios inexplicáveis, unidos a técnicas
elementares de articulação de texto!”
Aquele lugar se resumia a um festival de hipocrisia, inveja, ganância
e sacanagem que parecia não haver fim Uma conversa intelectualóide tão
repetitiva que me dava nojo. Não conseguia encarar aquilo tudo de forma
natural, aquele bando de pseudo-intelectuais das mais variadas áreas de
formação, pareciam uma espécie de zumbis amórficos se digladiando sobre
o mesmo tema. O relógio da parede marcava mais de quatro e meia da manhã,
quando pedi minha última cerveja. Meus últimos centavos estavam sendo
investidos naquela derradeira garrafa. A chuva havia aumentado ainda mais
quando um dos intelectualóides de plantão surtou e num ato heróico subiu
em cima de uma mesa, meio desequilibrado e gritou para todo mundo ouvir.
-Está todo mundo convidado para ir a minha ilha!
Uma ovação geral vindo de todas as mesas, lembrando os velhos tempos das
tabernas acompanhou o cidadão que tentava se equilibrar enquanto falava.
-Quero que todo mundo me acompanhe, vamos nos divertir até o dia amanhecer,
essa noite vai ser regada à cerveja, mulheres e muita poesia!
O garçom que a essa altura bebia comigo, não resistiu, me cutucou sorrindo.
-Tirando esse esquema de poesia, a parte da cerveja e das mulheres parece bem
interessante, cê num acha?
O pior é que ele estava coberto de razão.

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 19h12
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Café Van Gogh ( 49 )

E esse momento exato chegou em menos de duas horas. Lena completamente
exausta apagou no banco traseiro da veraneio, entregue num sono profundo.
A chuva havia diminuído consideravelmente quando resolvi olhar bem para
seu rosto dela e decidi. Vou dar o fora. A princípio achei um ato meio
egoísta pensar dessa maneira, afinal aquele nervosismo todo que havia
tomado conta dela, nada mais era do que um reflexo de total perda de controle.
Mas aquele silêncio dentro do carro fez com que eu fizesse uma analise
fria daquela situação, e dar o fora naquele momento era a decisão mais
acertada a ser feita, afinal nunca me considerei a pessoa mais indicada
para servir de ouvinte para lamúrias e lamentações, e Lena cada vez mais
parecia estar decidida e fazia questão de soltar seus demônios interiores
para cima do mundo. Eu tinha certeza que quando ela acordasse as coisas
iam mudar para permanecer as mesmas, e essa intimidade toda que havíamos
adquirido com o tempo só ia piorar a situação. Afinal, cada um tinha que
seguir seu caminho.
Desci do carro, e comecei a andar pela noite de Paraty. Passavam das três
da manhã, e um vento frio deixado pela chuva fazia questão de me acompanhar
pelas ruas vazias e alagadas. Não sabia ao certo aonde ir, mas minha perna
baleada fazia questão de me lembrar, que não poderia andar muito. Meu velho
hábito de fazer enormes caminhadas teria que ser reconquistado aos poucos.
Mas como desgraça pouca é bobagem, a chuva (sempre ela), resolver voltar,
e em dose bem maior, sem dó nem piedade, feito um direto de esquerda,
uma segunda tempestade, bem maior que a primeira, caiu de uma vez e fez
com que eu me abrigasse no primeiro boteco aberto que viesse pela frente.
O lugar era simplesmente fantástico, uma mistura de Pub londrino (apesar
de só conhecê-los por fotos e imagens de televisão, calculo que sejam
daquela maneira), com boteco de malandro do largo da carioca,
no Rio de Janeiro. Havia um sem número de fotos e cartazes na parede do lugar,
que um dia serviu de locação para um filme onde Sônia Braga se
destacou no cinema nacional. Apesar do dia, horário e do péssimo
tempo lá fora, o lugar estava empinhocado de gente, uma névoa densa de
cigarro servia de pano de fundo para o ambiente que acompanhado de
uma trilha sonora a base de standarts da mpb nacional estava infectado
de conversas, sons de copos quebrando e risadas, muitas risadas tão ou
mais alcoolizadas que a maioria dos presentes no local. Tentei me ajeitar
na entrada do lugar, mas a chuva parecia me acompanhar, e tive que tomar
a iniciativa de fechar a porta de entrada, caso contrário à água inundaria
até o balcão mais próximo.
-Pode se acomodar, que eu tomo conta disso, meu senhor!
Levei um susto quando ouvi o vozeirão do garçom as minhas costas, a voz
do lazarento era uma mistura grave e cavernosa do velho e bom Cid Moreira
com o sombrio e célebre Bela Lugosi.
-Não, não. Eu só entrei pra me esconder da chuva, sabe como é já, andei
tomando chuva demais por esses dias, tô ficando meio gripado.
-O senhor quer dizer, que não é escritor?
-Escritor eu?
-É!
Sorri
-Sei escrever meu nome, e olhe lá!
O garçom demonstrou um certo alivio ao ouvir minha frase, repleta de
ironia e sarcasmo, e encostou bem próximo a minha orelha direita e falou
bem baixo, como que num tom confessional .
-Não agüento mais, esse papo furado de literatura. Esse bando todo de
paus d’ água se dizem escritores, e só falam de literatura, sabe como é.
Já estou ficando com nojo, não agüento mais.
-Eu cálculo, o tipo de conversa, que você deve estar ouvindo.
-Há mais de dois dias que só se fala de literatura nesse lugar. Isso aqui
transformou-se numa espécie de sucursal do inferno!

continua...



Escrito por fernandobluesborghi às 14h41
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