El Gran Finale
Depois de seis meses de intensa negociação, Minhoca acabou cedendo e resolveu negociar os direitos de sua obra, mas com apenas uma condição. Que ele sequer fosse avisado a respeito do início das filmagens, Minhoca fazia questão de se manter completamente afastado daquele esquema neo-hollywodiano de visão de mundo. Onde apenas a imagem é o que interessa. Mesmo tendo sido consultado por mais de uma vez a respeito de dúvidas recorrentes aos meandros da adaptação para a linguagem cinematográfica, Minhoca fazia questão de se manter afastado do projeto, que mesmo levando em consideração o naipe da equipe, os irretocáveis atores e atrizes que compunham o elenco e o esmero da produção que em menos de um ano depois já tinha data e local pré-agendados para uma exibição particular, realizada para não mais de cem pessoas, que saíram da sala de exibição com sorrisos largos de satisfação ao terem presenciado muito além de uma tendência bem articulada de imagens e cor, mas algo que possuía um tom de cinismo inteligente e que com certeza era um novo sopro de vida para o cinema nacional. Em menos de um mês após essa pré-estréia, o filme finalmente foilançado para o circuito, e em poucas semanas, virou capa de revistas semanais de fofoca, de cadernos “B” de Jornais Diários e de matérias e mais matérias de programas de televisão. O filme fazia uma excelente carreira nos cinemas, ultrapassava números estratosféricos de bilheteria, mas Minhoca permanecia irredutível, não queria assisti-lo de jeito nenhum. Relutava aceitar os milhares convites da mídia que pipocavam em sua porta sem parar, forçando-o a momentaneamente mudar-se para o sítio de seus pais no interior do Estado, para numa espécie de retiro da civilização continuar a fazer o que mais gostava. Desenhar suas Histórias em Quadrinhos. E os meses foram passando, o filme foi perdendo a força e aos poucos saiu de cartaz, para em bem pouco tempo alcançar o forte mercado das locadoras. Minhoca completava oito meses de isolamento no sítio, nunca em toda sua vida havia produzido tanto, milhares e milhares de páginas de trabalho ocupavam quase que todo o espaço de um improvisado escritório, até o dia em que Minhoca recebeu um sedex, numa sexta-feira de manhã. Ao sentar-se no sofá e abrir o envelope deu de cara com um exemplar de um Dvd da adaptação de A Hora e a Vez Dos Garotos De Franjas Compridas, com uma folha com apenas uma frase: “Eles não entenderam nada a respeito do teu trabalho!” A carta era de um fã inveterado da obra de Minhoca, que indignado com o que assistira, fez questão de entrar em contato com o autor. Minhoca não sabia o que fazer permaneceu em silêncio sentado no sofá a observar a tela negra da televisão por longos quinze minutos, até tomar a iniciativa de colocar o disco no aparelho de Dvd e assistir ao filme. O corpo de Minhoca foi encontrado caído por sobre a mesa da cozinha em avançado estado de decomposição uma semana depois, pelo caseiro, ao lado do estilhaçado Dvd do filme e de um bilhete que em poucas palavras resumia o que Minhoca estava sentindo antes de suicidar-se: ”Como eu pude deixar que fizessem esse lixo com minha obra!”.

Escrito por fernandobluesborghi às 09h58
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Três de Doze
E assim, totalmente determinado a saborear uma vitória amarga, mas nunca se transformar num boneco de cera da sociedade de consumo, começou a freqüentar as filas dos Teatros, das Galerias de Cinema, das mesas intelectualóides do centro da cidade, dos Dce’s das Faculdades e dia após dia viu as tiragens de seu: A Hora dos Garotos de Franjas Compridas, ganhar cada vez mais adeptos, chegando ao nível de ter reservas financeiras de seus consumidores para os próximos exemplares, que cada vez mais cedo esgotavam suas tiragens número após número maiores e mais bem acabadas. Chegando ao ápice de na edição de número dezoito, que possuía o peculiar título de A Hora e a Vez Dos Garotos De Franjas Compridas Entenderem Que Os Espelhos São Engraçados Pois Nunca Mostram O Que Se Quer Ver De Verdade, atingir números estratosféricos de tiragem, para um gibi alternativo: 2.000 exemplares. O poder do trabalho de Minhoca era tamanho, que sua repercussão e qualidade haviam atingido uma dimensão tão poderosa ao ponto de correr um buchicho na Internet que uma banda Cearense ( de enorme sucesso no circuito alternativo europeu de shows), era totalmente influenciada pelo trabalho dele chegando a copiar a fórmula característica do conjunto musical retratado nas histórias em quadrinhos, ou seja. Tocar as guitarras ao contrário cantando com o acompanhamento dos vocais de trás para frente. Toda essa efervescência, curiosidade e burburinho criado em cima do trabalho de Minhoca acabou resultando no que era óbvio para alguns. Um convite para realizar uma adaptação de seu trabalho para as telas dos cinemas. E não era um convite qualquer, era um senhor convite vindo de um cineasta de currículo invejável e com uma visão bem próxima daquela que Minhoca fazia questão de imprimir em seus quadrinhos. Por mais de uma vez o cineasta tentou sem sucesso, comprar os direitos para adaptar para o cinema os quadrinhos que cada vez mais arrebatava admiradores. Um dos motivos da recusa por parte de Minhoca era a pura e simples ignorância dele a respeito do trabalho do cara, que foi resolvido depois de muita pressão por parte dos amigos do quadrinista que numa virada lunar, numa complicada conjuntura dos planetas que compõe o sistema solar resultou na difícil decisão de Minhoca parar de relutar contra si mesmo e por fim acabar tomando a inédita decisão de num final de semana prolongado locar os quatro filmes que compunham a obra do cara e acabou surpreendendo-se com a visão pessoal impressa na tela pelo até então, para ele, desconhecido cineasta, algo muito próximo à percepção de vida transmitida através dos quadrinhos, algo que definitivamente os unia.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 09h29
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Segunda de Oito
Minhoca possuía uma liberdade criativa absurda, de dar inveja a profissionais de longa data no ramo, além de ter uma mente fértil e um traço incisivo, tentava se aprimorar cada vez mais, nunca se dava por satisfeito, era seu mais áspero e intransigente crítico. Enquanto não encontrava uma novidade a cada folheada de seu trabalho, não se contentava, seu limite e sua capacidade de superação estavam diretamente ligados ao mais alto grau de solução para tramas vertiginosas recheadas de personagens complexos e desfechos mirabolantes. A Hora dos Garotos de Franjas Compridas era uma espécie de epopéia pop de uma banda composta de adolescentes com técnicas instrumentais deficientes e hormônios a flor da pele que mesmo sem nenhuma criatividade e mínimas potencialidades artísticas acreditavam piamente em não possuir a fórmula para alcançar o sucesso mundial na indústria fonográfica. Segundo eles, composto de apenas três itens básicos: 1- O Comércio. 2- O Comércio. 3- O Comércio. E o tempo foi passando, a determinação em criar seu universo pessoal recheado de personagens outsiders (cada vez mais envolvidos em um submundo totalmente sem perspectivas de futuro, onde todo o ser humano, no fundo se acha uma fraude), tomava cada vez mais uma parcela maior de seu tempo, e mesmo se negando a dar atenção aos amigos mais próximos que insistiam que Minhoca levasse seu trabalho até uma editora, por sentirem ao folhear as infinitas páginas e mais páginas de seu trabalho, estarem tendo a exata sensação de presenciar algo extraordinário, de real valor e consistência. Minhoca mantinha-se fiel a seu estilo Punk de pensar, seu lema do: ”Faça você Mesmo!”, estava mais vivo do que nunca. E decidiu que era a hora de mostrar seu trabalho ao maior número de pessoas possíveis, mas dentro de uma linha de pensamento que o mantinha vivo e nunca refém de seus consumidores ou editoras, e sim dono de seu nariz e de maneira mais independente que Tiradentes, resolveu partir para o ataque e começou a xerocar manualmente seu gibi e vender nas noites quentes dos botecos da cidade.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 10h10
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Primeira de Quatro
A Hora dos Garotos de Franjas Compridas
Cérebro de Minhoca. Esse era o carinhoso apelido dado por seus amigos desde os tempos da quinta série. Não que fizesse tanto tempo assim, pelo contrário, Minhoca estava tentando de todas as maneiras completar o segundo grau, mas estava encontrando uma espécie de dificuldade enorme, imposta por ele mesmo, que pouco a pouco tomava conta de todo seu tempo, e o impossibilitava de seguir adiante nos estudos. A Hora dos Garotos de Franjas Compridas, esse era o nome do pesadelo que havia tomado conta da família Ferraz de Vasconcelos Gouveia Andrade. Minhoca, o último herdeiro de uma pequena prole composta de dois homens e duas mulheres, havia resolvido manchar de negro o nome da família e se tornar o que até então era algo de outro planeta para seu patriarca do ramo da tinturaria. Seu filho havia decidido ser quadrinista. Uma profissão, que juntamente com o futuro do Palmeiras, soava incerto ao ouvido do cada vez mais intransigente e desiludido proprietário de uma das maiores redes de Tinturaria do centro sul do País, que não cansava de esbravejar aos quatro cantos da casa sua indignação perante a petulante decisão de seu filho. -Onde já se viu, ficar desenhando hominhos a noite toda não vai levar ninguém a lugar nenhum! Luis Otávio (O Cérebro de Minhoca), você precisa é se voltar para os estudos meu filho, caso contrário vai passar fome quando crescer, porque eu é que não vou ficar sustentando vagabundo a vida inteira. Mas Minhoca não fazia questão nenhuma de dar ouvido a seu pai, e continuava decidido a passar suas noites debruçado por sobre uma prancheta dando vida a Hora Dos Garotos de Franjas Compridas, mesmo sobre o alerta da mãe, a respeito de suas enormes olheiras e do desgaste para a saúde que a noite trás aos mais desavisados. Minhoca se recusava a ouvir, segundo ele, durante a noite o “tráfego energético”, está menos engarrafado, mais propício para o desenvolvimento de seus personagens, e por conta disso havia chegado a ficar até oito meses sem ver a luz do sol.
continua...

Escrito por fernandobluesborghi às 17h24
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