Bennet salvando o dia...

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Escrito por fernandobluesborghi às 18h13
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Mulheres e Crianças Primeiro
A espaçonave pousou no quintal de Seu Juvêncio exatamente as duas e meia da manhã. O efeito pirotécnico de luzes e fumaça foi tanto que de imediato os cachorros incumbiram-se de acordar a família. O velho Juvêncio, Dona Etelvina e os dois filhos acenderam as luzes da casa e com expressões de puro medo em meio às janelas entreabertas perceberam atordoados as ilustres visitas intergalácticas no meio do milharal. A princípio não conseguiram identificar ao certo o que era aquele negócio enorme em meio à plantação. A princípio era uma mistura de Colheitadeira com uma Panela de Pressão. Mas depois de analisar com um pouco mais de calma, chegaram à conclusão que aquele negócio estacionado defronte a casa dos Lima e Silva era de outro planeta. E sendo de outro planeta, eles não tinham lá muito boa fama pelos lados do Sul do Paraná. Mesmo sem querer. Com um medo imenso e tremendo mais do que no dia do casamento, Seu Juvêncio não viu outra escapatória a não ser encarar aqueles invasores de igual pra igual, de homem pra homem, de ser humano para alienígena. Com um pequeno trabuco na mão direita, um terço na mão esquerda e uma tremedeira infeliz em ambas as pernas, Seu Juvêncio não tinha outra escolha a não ser ficar estático defronte a porta da espaçonave. Os filhos mais a mulher gritavam dentro da casa pressionando o chefe da família. -Vai lá pai, bate na porta desse negócio! -O meu velho, mostra pra esse povo quem manda nessas terras! E dando uma de dono do pedaço, Seu Juvêncio resolveu intimidar os invasores na base do grito e com um tiro para o alto. -Seja lá quem for que estiver dentro desse trem, trate de ir saindo logo que essa propriedade tem dono! A porta da espaçonave abriu, e do meio de um cem número de luzes e raios infravermelhos, dois enormes alienígenas verdes surgiram para o desespero do velho Juvêncio que a essa altura havia se borrado todo, em meio ao desespero e a possibilidade da morte o levar para outro estágio da vida, o velho Juvêncio não enxergou outra alternativa, a não ser abrir o jogo com os intrusos intergalácticos. -Oh Meu Deus! Alienígenas Espaciais! Por Favor, não me comam! Eu tenho mulher e filhos! Comam eles primeiro!

Escrito por fernandobluesborghi às 19h35
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PAULO AUTRAN E UM POSSÍVEL LEGADO
De Paulo Autran se falará aqui. Não como notícia nem como réquiem. Mas, sim, como memória. E por um outro motivo, o qual deixarei para o final.
No feriado de 12 de outubro, como deve ser sabido, ocorreu a morte do ator – já devidamente noticiada, comentada e repercutida nacionalmente. Ao receber a notícia, súbito me ocorreu uma lembrança. Nítida e cristalina, como acontece quando lembramos de algo que aconteceu há tempos, mas parece ter sido outro dia mesmo. Lembrei, com detalhes, do primeiro diálogo que travei com Paulo Autran.
Não foi esta a única vez que nos falamos. Por obra de ofício, cuidei da produção executiva de alguns de seus espetáculos, em algumas cidades do interior de São Paulo. Mas é da primeira vez que trocamos palavras que pretendo extrair a seiva que escorrerá por este artigo.
Após algumas tentativas frustradas de trazê-lo para se apresentar no Teatro Verdi, eis que finalmente consigo agendar uma data para a apresentação de seu monólogo “Quadrante”, espécie de espetáculo-curinga que o ator manteve por quase 20 anos. Como ele estava em cartaz em São Paulo de quarta a domingo, com uma outra produção, a data acertada ficou sendo uma terça-feira, dia inusitado e ingrato para se apostar em um sucesso de público. Outra oportunidade talvez não houvesse. Resolvi aceitar a aposta.
Acertados os detalhes, contrato assinado, ingressos colocados à venda, estabeleceu-se que Paulo Autran chegaria a Salto em seu próprio carro, acompanhado de seu técnico de som e luz, seu secretário e sua administradora. O horário de nos encontrarmos no Teatro Verdi ficou marcado para as 15 hs. Com alguns (poucos) minutos de atraso, Paulo Autran chegou. Cumprimentos e formalidades vencidos, ele me comunicou o desejo de comer doce. Saímos a pé, por opção do próprio ator, em direção a uma doceria. Chegando lá, Paulo Autran me disse que não era exatamente este tipo de doces que sua “lombriga” pedia. Queria, segundo suas palavras, “comer doces da infância”. Compreendi.
Levei-o para um boteco em frente à praça. Sua alegria e seu deleite comendo maria-mole, doce de abóbora em formato de coração e tomando guaraná caçulinha formaram uma imagem que me é inesquecível. Olhando para a praça, para a Concha Acústica, de repente Paulo Autran pára, pensa e se dá conta de que, quando menino, “talvez 10 ou 12 anos”, esteve ali, acompanhando o pai em um passeio. Recorda-se da sensação de medo que teve ao atravessar uma ponte que lhe pareceu frágil, e que balançava por sobre um rio Tietê caudaloso.
Ao ser informado de que esta ponte de fato existia e atendia pelo nome de Ponte Pênsil, manifesta a vontade de que eu o leve até ela. Digo-lhe que se encontra fechada, imprópria para o uso. Insiste. Quer ao menos vê-la. Levo-o. Parado, olhando para o portão lacrado da ponte, Paulo Autran me diz que “essa é a segunda tristeza que a tua cidade me dá...”. Segunda?, questiono. “Pois é, o turismo de Salto acaba de cometer uma violência contra a minha velhice, contra a minha memória...”. Entendo.
Mas ele havia dito ser esta a segunda tristeza. Qual teria sido a primeira? “Sempre quando me apresento pela primeira vez em uma cidade, mesmo que esteja acompanhado por alguém que saiba me levar até ao Teatro, costumo fazer uma espécie de teste para medir o grau de envolvimento das pessoas do local com a Cultura. Paro o carro e pergunto onde é que fica o Teatro para a primeira pessoa que encontro. Aqui, somente na terceira tentativa é que uma mulher soube me indicar o caminho. Isso é muito preocupante...”.
Contra-argumentei que os ingressos estavam quase todos vendidos, mesmo sendo uma terça-feira. Ele me respondeu que isso não deixava de ser um bom sinal, mas que as duas primeiras pessoas perguntadas, embora não soubessem informar a localização do Teatro, o haviam reconhecido. O que isso significa?, perguntei. “Que, melhor do que reconhecer o ator famoso, que eles só conhecem pela imagem que lhes invade as casas, seria saber o caminho do Teatro de sua cidade...”.
O tempo passou, trabalhei com ele outras vezes e o Teatro Verdi definhou até cerrar suas portas (provando que Paulo Autran tinha razão em sua preocupação). A notícia de sua morte me fez recordar desta passagem de minha carreira. Resolvi dividi-la, como uma espécie de diálogo com os gestores públicos da Cultura saltense.
Às vésperas de Salto ganhar um novo Teatro Municipal: a Sala Anselmo Duarte, prevista para ser inaugurada em meados de 2008, talvez fosse importante refletir sobre o que me disse Paulo Autran em algum lugar compreendido entre o portão lacrado da Ponte Pênsil e o Teatro Verdi, na tarde de uma terça-feira há quase 18 anos atrás.
Ripei esse belo texto do blog do meu amigo Pardim
http//mslppardim.blog.uol.com.br

Escrito por fernandobluesborghi às 20h49
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